agosto 14, 2016

......... ANTONIO NAHUD: UMA INEGOCIÁVEL INDEPENDÊNCIA



por THIAGO GONZAGA

Ilustrações:
VICTOR FOTA

Retratos de Antonio Nahud:
MORVAN FRANÇA


A entrevista que aqui se publica, realizada originalmente em março de 2016 e parte dela estampada no “Substantivo Plural”, é de autoria do pesquisador potiguar Thiago Gonzaga, editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras (ao lado do escritor Manoel Onofre Jr.) e do blog “101 Livros do RN”. Autor de vários livros sobre escritores, entre eles, “Impressões Digitais – Volume 3”, lançado em 2015, e do projeto “Caravana de Escritores Potiguares”.

Esta conversa é apenas a origem de uma obra maior, culminando em livro de entrevistas. “Cinzas e Diamantes” agradece a Thiago Gonzaga a oportunidade desta pré-publicação. É importante que as palavras – e as imagens – de um escritor cheguem a um público cada vez mais diversificado. Aqui está o meu pensamento através do interlocutor certo, um estudioso conhecedor deste “cigano” nascido na Bahia.

antonio nahud
Este grapiúna descobriu a literatura cedo. Começou adolescente no jornal “Cacau/Letras”, editado pelo escritor Hélio Pólvora, e seguiu publicando contos e poemas nas revistas “Exu” (Bahia), “New Wave” (EUA), “Go” (Espanha) e “V_Ludo”(Portugal). Editou o jornal “Narciso” e a revista “Ícone”. Publicou doze livros, entre eles, “Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém”, em Portugal. Participou de inúmeras antologias de contos e poemas. A mais recente será lançada no próximo mês, “Os Sete Pecados Capitais”, coordenada pelo jornalista e escritor cearense Cássio Cavalcante. Seu conto “Noites de Ninguém aborda a luxúria.

Nasceu para colocar o pé na estrada. Morou no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Madri, Barcelona, Paris, Sintra, Lisboa, Londres, Ilha de Graciosa (Açores). Tem diversas matérias publicadas na “Folha de S Paulo”, “O Tempo” (MG), “A Tarde” (BA), “Tribuna do Norte” (RN), “Jornal de Hoje” (RN), “Jornal de Sintra” e “Diário de Notícias”, de Lisboa. Escreveu para as revistas “Simples?” e “Profashional”, de São Paulo, e “Continente Multicultural”, de Pernambuco. Repórter da rede Manchete durante dois anos. Apresentou e dirigiu o programa “Fina Estampa”, na TV Itabuna. Gosta de ir ao cinema, ler, fotografar, tomar banho de rio, cozinhar.

Entrevistou a atriz francesa Isabelle Huppert (“Folha de S Paulo”, “Ilustrada”), o diretor dinamarquês Lars von Trier (“Simples”), o escritor português Antonio Lobo Antunes (“A Tarde”), entre dezenas de outras personalidades. Trabalha atualmente no romance “Homem Sem Caminho”. Admira Bruce Chatwin, Paul Bowles, Henry Miller, John Fante, Karen Blixen, Raymond Carver, Virgínia Woolf.

Edita dois blogues, “O Falcão Maltês – Uma Viagem Apaixonada Pela História do Cinema” e este “Cinzas e Diamantes – Panorama do Pensamento Artístico”. Sua escrita se desdobra em ensaios, palpites e pitacos sobre o viver e o sobreviver; o amar e o errar; sobre a teimosia em ser romântico, sobre o amor pela literatura e pelo cinema, um agradecimento por tudo que ganhou da vida, e o sabor de celebrar a majestosa natureza.

Ao mesmo tempo, o jogo com a ficção é o jogo com o documental. Uma tessitura literária urdida na vertigem da realidade. Tudo, até certo ponto, parece pensado e planejado para que uma grande revelação aconteça. É de uma independência estimulante. Não há como oprimi-lo. Não há nada na literatura de ANTONIO NAHUD que não traduza uma qualquer forma de desafio. Confira a entrevista.

Antonio Nahud, onde você nasceu? Conte-nos um pouco da sua infância e juventude.

Nasci no sul da Bahia, na fazenda de cacau da família, a Bela Vista, nas terras-do-sem-fim de Jorge Amado, cercada por cidades de porte médio, perfeitas para fábulas de David Lynch. Montava cavalo, falava com bichos e árvores, nadava no rio Cachoeira, garimpava a Mata Atlântica, colecionava recortes de jornais-revistas, contava estrelas, via assombrações. Menino estranho, aproximei-me da psique das ideias por meio dos livros. Aos treze anos, tímido, leitor apaixonado, surgiu o desejo de viajar. Talvez porque o desejo de viajar é também o desejo de saber. A possibilidade de viajar desde cedo ampliou vozes e visões na mente acesa.

Quais foram as suas primeiras leituras literárias?

O primeiro livro lido, talvez “As Mil e uma Noites”. Aos oito, nove anos, esses contos de formosura delirante me pareciam sublimes. Nessa época, mergulhei nas páginas benditas de Monteiro Lobato e Sir Walter Scott. Aos doze, treze anos, a vez de Jorge Amado, Adonias Filho, Victor Hugo. A seguir Dostoievski, F. Scott Fitzgerald, Faulkner, Thomas Mann, Kafka, Hemingway. A inglesa Virgínia Woolf, o alemão Hermann Hesse e o mineiro Autran Dourado foram os primeiros escritores que me tocaram profundamente. Resultando num chamado literário.



E seus primeiros escritos, falavam sobre o que?

Felizmente o que escrevi antes dos dezoito anos desapareceu num incêndio. Eu inventava contos góticos. Histórias macabras, alucinantes, desesperadas, de arrepiar. Influenciado por clássicos cinematográficos vistos na TV e lendas rurais. Aos quinze anos, escrevi um quase romance, “Vidas em Tempestade”. Mais de cem páginas à mão, em cadernos finos colados um no outro. Narrava aventuras de jovem milionária perseguida por padrasto maléfico, ambicioso. Raptada e abandonada numa ilha selvagem, supostamente deserta, ela conhece uma espécie de xamã. Apaixonam-se. Ao adquirir poderes paranormais com o amado, divide-se entre o amor redentor e a revanche final. Era muito ruim.

Conte-nos da sua experiência de morar em outras cidades, e até em outros países?  De que forma isto contribuiu para a sua formação?

A distância me incentivou a escrever. O fato de estar longe do Brasil, longe da Bahia, permitiu-me escrever com mais liberdade e vontade. A escrita passou a nascer de uma falta, de uma ausência. Passei a maior parte da vida mudando de cidade ou país. Aos dezesseis anos fui estudar em Salvador. Aos dezoito anos, tranquei o curso e passei um ano no Rio de Janeiro, na malandragem. Foi maravilhoso. Conheci o escritor argentino Manuel Puig, de “O Beijo da Mulher Aranha”. Íamos juntos assistir clássicos na cinemateca do MAM. Também frequentava os apartamentos dos poetas Antônio Cícero e Waly Salomão. De volta a Salvador, comecei a publicar em suplementos literários. Morei em São Paulo em 1990 e 1991. Trabalhava como assistente do editor Pedro Paulo de Senna Madureira na Editora Siciliano. Na Paulicéia, conheci muitos escritores, de Lygia Fagundes Telles a Caio Fernando Abreu. Em 1994 aceitei um convite de uma companhia de teatro para trabalhar na Galícia, Espanha. De lá, passei longas temporadas na Inglaterra, Portugal, França.

Foi nesse período que começou seu amor pelo cinema?

Possivelmente nasci amando cinema. Meu pai, advogado intelectual, fascinado por filmes de guerra, western e aventura; minha mãe, comédias românticas e melodramas hollywoodianos. Nossa casa grande, decadente e movimentada, tinha pelo menos umas dez pessoas circulando, entre familiares e agregados. Havia também muitos animais e fantasmas no sotão. Na hora da sessão de cinema na TV, meu pai ordenava que não se podia dar um pio, e assim acontecia. Eu e meus cinco irmãos meninos, em silêncio, olhos pregados na telinha. Assistimos “Rebeldia Indomável”, estrelado por Paul Newman; “Os Doze Condenados”, “Os Girassóis da Rússia”. Aos doze fui com um tio a um cinema de arte ver “Amarcord”, de Fellini. Paixão à primeira vista. Nunca mais abandonei o cinema. É uma âncora de sobrevivência.

Cite-nos alguns dos seus filmes preferidos.

Meu apetite cinematográfico é versátil. Tenho fases de identificação por determinados gêneros, países, cineastas ou atores/atrizes. Posso garantir que Ingmar Bergman é o diretor favorito. Filmes? São tantos. “Rocco e seus Irmãos”, de Luchino Visconti; “A Marca da Maldade”, de Orson Welles; “Fausto”, de Murnau; “A Noite”, de Antonioni; “O Sol por Testemunha”, de René Clement; “Rastros de Ódio”, de Orson Welles; “O Segredo das Joias”, de Huston; o brasileiro “O Padre e a Moça”, de Joaquim Pedro de Andrade; “As Troianas”, de Cacoyannis. E tem mais outros tantos.

Além do cinema e da literatura, que outra arte desperta seu interesse?

As artes plásticas me encantam. Antes de escrever, tentei ser pintor, fiz exposições e vendi algumas telas. Ao visitar o Masp pela primeira vez, percebi que não tinha talento, nunca mais voltando a pintar. Amo também música, dança, teatro. Vi extraordinárias companhias teatrais em distintos países. Visitei emblemáticos museus inúmeras vezes. Passava tardes e mais tardes no British Museum no ano em que morei em Londres. Em casa ouço música o tempo todo, principalmente jazz, bossa-nova, erudita.


E como surgiu o seu amor pelo teatro? Você inclusive já escreveu várias peças, correto?

Atores e diretores me interessam. Ao estudar em Salvador assistia a quase todas as peças em cartaz, graças à gentileza de amigos, profissionais de teatro. No Rio e em São Paulo eu vivia no teatro. Encontrei Plínio Marcos, maltrapilho, vendendo seus livros na porta de casas de espetáculo. Na Europa, vi peças sem entender o idioma. Em francês, Isabelle Adjani fazendo “A Dama das Camélias”. Em alemão, Hannah Schygulla, e em italiano, Giorgio Albertazzi num monólogo adaptado de “Memórias de Adriano”, de Yourcenar. Escrevo teatro desde sempre. Poucos textos encenados, duas vezes no sul da Bahia e mais uma em Sintra, Portugal. Atores-diretores opinam que são peças complexas, cinematográficas, polêmicas, esquisitas, difíceis de montar. Um dia faço como Beckett, fundo uma pequena companhia e apresento ao público as tais peças “complexas”.

Nahud, organizou um livro onde entrevista muitas celebridades internacionais, fale-nos de como se deu a construção dessa obra.

De 1994 a 2006 vivi na Europa, com intervalo em 2003 trabalhando na Petrobras em Salvador, passando alguns meses em Natal. Correspondente dos jornais “A Tarde”, “Folha de S. Paulo” e “O Tempo”, de Minas. Colaborava com inúmeras publicações no Brasil, Portugal e Espanha. Circulava em festivais e outras premiações de cinema, bienais literárias, estreias de filmes com a participação do elenco e apresentações de artistas brasileiros. Ao passar essa primeira temporada em Natal, fui entrevistado, conheci gente interessante e terminei convidado por uma editora local, A. S. Editores, para publicar um livro de entrevistas. Tudo rápido. Não houve tempo para qualquer dedicação. O lançamento de “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”, numa galeria em Petrópolis, foi sucesso. Vendi mais de 300 exemplares.

Você publicou quantos livros até o momento, algum preferido?

Todas as publicações foram inusitadas, nada convencionais. Nunca mandei originais para editoras de peso. Sempre surgem convites alternativos. Publiquei nove livros no Brasil e três em Portugal. Geralmente esqueço os livros publicados. Agarro-me ao mais recente projeto literário. No entanto, de todos eles, talvez prefira “Se Um Viajante numa Espanha de Lorca – Crônicas de Costumes, Quase Fábulas, Delírios, Carmen, Dom Quixote e Alguma Inquietude” (2005), livro de crônicas, publicado pela editora Pé de Página, de Coimbra. Ele resultou de observações solitárias, íntimas e sinceras em inúmeros países, do Marrocos a Itália, da Grécia a Espanha. Livro corajoso, onde me revelo à flor da pele. Lançado em várias cidades portuguesas. A edição se esgotou em poucos meses e não circulou no Brasil. Ficaria feliz em vê-lo publicado por aqui.

Você recebeu o Troféu Cultura - RN em 2013, com o livro de contos "Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano", ficou feliz com o resultado do livro?

O mundo não deveria incentivar fronteiras. Sou como os índios ou os ciganos, cujo território em que vivem não é limitado, documentado, comercializado. A noção de terra sem fronteiras se apresenta na literatura de viagens. “Pequenas Histórias” fala do mundo, principalmente do mundo interior. É uma antologia de contos escritos ao longo da vida, muitos deles publicados em jornais e revistas. No livro, está o meu conto mais antigo, “Fúria”, e também contos mais atuais que gosto apaixonadamente, outros nem tanto. Parece comigo, além de escrevê-lo, defini a ilustração da capa, papel, acompanhei de perto a diagramação. Ele teve lançamentos concorridos em várias capitais nordestinas, mas a distribuição capenga exilou o livro.

Fale-nos um pouco da sua amizade com os poetas Hilda Hilst e Diógenes da Cunha Lima.

Compartilhei as pérolas do pensamento lúcido e singular de Hilda. Durante dois anos passei os finais de semana na sua casa gótica em Campinas. Acompanhei a feitura de “Do Amor”. Era uma senhora extraordinária. Culta, genial, irreverente, e também amarga, desencantada. Professor Diogenes, homem soberbamente inteligente, um enriquecedor manual de sabedoria, um monumento literário potiguar. A admiração que sinto por ele excede a mera recordação de fatos relevantes de uma vida, para se tornar, a partir de reflexões, o reconhecimento de um coração adorável e de um talento acima de qualquer suspeita, um autor lustroso a ser celebrado no futuro.


Para Nahud qual o melhor momento para escrever? Como acontece o seu método de criação? Escrever é uma atividade solitária?

Escrever é uma atividade íntima. Tomo notas no cotidiano. Notas nem sempre utilizadas. Para escrever, isolo-me. Somente eu, fundo musical e, às vezes, algum vinho tinto. Prefiro escrever à noite. Sou bicho noturno, da raça das corujas. Não tenho um método preciso. Posso passar diversas noites trabalhando num projeto literário e, repentinamente, deixá-lo de lado para me dedicar durante dias a textos específicos para blogues. Constantemente escrevo. No trabalho, na rua, em casa. Houve época em que acordava no meio da noite para anotar sonhos, outra em que após o ato sexual esboçava impressões num bloco. Cultivo “Diários” que cobrem cerca de quinze anos de vida. Às vezes penso que sou máquina de palavras.

O que você lê na atualidade?  Quais são suas principais influencias literárias?

Fui um dedicado leitor a vida toda. Atualmente leio pouco. Praticamente releio. Tenho preferido biografias, história, filosofia, livros que tratam do universo cinematográfico. Este ano li o italiano Alessandro Baricco – que entrevistei em Milão; “Catarina Paraguaçu – A Mãe do Brasil”, de Tasso Franco; e “Rincões dos Frutos de Ouro”, de Sabóia Ribeiro. Na fila para os próximos meses, Marguerite Yourcenar e Paul Bowles. Tive (tenho) influências de autores completamente distintos na sua forma de escrever: Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Hesse, Whitman, Hilda, Rilke, Tolstoi, Fitzgerald, Ítalo Calvino. Também fui marcado pelo imaginário homossexual de James Baldwin, André Gide, Jean Genet, Yukio Mishima e Christopher Isherwood.

Em sua opinião o que falta para o escritor potiguar romper com os muros provincianos?

O escritor potiguar é reservado, talvez inseguro. Mesmo entre amigos escritores, ele age timidamente. Longe deste insensato mundo, o seu trabalho é o seu castelo sem portas, cercado por um fosso hostil. Diferente de outros estados nordestinos, onde geralmente os escritores se exibem, se rebolam, agrupam-se, planejam estratégias de sobrevivência, derrubam fronteiras. Moro em Natal há seis anos, fiz diversas tentativas para me aproximar dos escritores locais. Gentis, coisa e tal, mas não passam daí. A confiança, generosidade, incentivo, parceria e braços abertos do professor Diogenes são atitudes raras. Eu admiro profundamente sua boa educação. Se os escritores potiguares utilizassem o método existencial cintilante e afável do professor há muito a literatura local teria atravessado fronteiras. Sob a minha ótica, falta aproximação, interesse no outro, trabalhos em conjunto, movimentos literários solidários.

Como é sua relação com as mídias sociais em tempo de internet? Ela, de alguma forma, ajuda na divulgação do trabalho do autor?

Positiva. Meu penúltimo livro, “Confissões”, após lançamentos, circulou apenas nas livrarias de Natal. Ainda assim, esgotou-se graças às redes sociais. Divulgador de mim mesmo, tenho dois blogues atualizados semanalmente há cerca de seis anos. Recebo visitantes de todo o mundo. Colaboro com diversas publicações on-lines. Por fim, o facebook me dá um substancioso retorno literário.

Você tem acompanhando a literatura potiguar contemporânea?  O que tem lido? Qual a sua opinião sobre nossos escritores?

Passei um bom tempo descobrindo a literatura potiguar. Conheci muita gente boa. François Silvestre, Myriam Coeli, Oswaldo Lamartine, Marize Castro, Iracema Macedo, Iaperi Araújo, Paulo de Tarso, Luíz Fernando Guimarães, Francisco Ivan, Nei Leandro. Ano passado li Câmara Cascudo, amando seus pequenos perfis biográficos; a biografia de Newton Navarro por Sheyla Azevedo; “Carla Lescaut”, do amigo Cefas Carvalho; Lívio Oliveira. Considero que a literatura potiguar tem personalidade própria. É uma boa literatura.


A poesia potiguar tem uma tradição de ter sempre bons nomes publicando poesia. Na atualidade você enxerga isso também?

O Rio Grande do Norte é terra de poetas, assim como a Bahia é de prosadores. Confesso não conhecer o trabalho da maioria dos poetas locais. Como o tempo é curto, leio preferencialmente amigos ou conhecidos potiguares. Gosto dos jovens Yuri Ícaro e Augusto B. Medeiros. Gosto da poesia de Myriam Coeli e de Paulo de Tarso, talvez o maior talento poético potiguar vivo. Gosto de Iracema Macedo e Marize Castro. Gosto da poética “enamorada do viver” do professor Diogenes. Gosto de Dorian Gray e Luiz Carlos Guimarães. O Rio Grande do Norte não pode se queixar, conta com poetas expressivos. Na prosa, nem tanto, contam-se nos dedos.

Quais seus escritores preferidos, dentro da literatura local e nacional?

Não tenho escritores favoritos. Sou mutante em paixões literárias. Posso dizer que admiro François Silvestre, Câmara Cascudo, professor Diogenes e Eulício Farias de Lacerda. Na Bahia, terra minha, considero Jorge Amado, Hélio Pólvora, Jorge Emílio Medauar e Adonias Filho escritores extraordinários. Comecei com Hélio, no extinto jornal “Cacau/Letras”, e lembro-me honrado dessa oportunidade. Gosto da poética de Ferreira Gullar, Waly Salomão, Antonio Cícero, Hilda Hilst, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Leminski, Sosígenes Costa, Jorge de Lima. Na prosa, Lúcio Cardoso, Clarice, Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Autran Dourado, Graciliano, Murilo Rubião, Milton Hatoum. Nunca me esqueci de uma frase que o mineiro Lúcio costumava dizer: “O que ocultamos, é o que importa, é o que somos”.

Em qual vertente literária você se realiza mais escrevendo?

Fico entre conto, crônica e dramaturgia. Alcancei bons momentos nesses gêneros. Com a poesia não tenho identificação satisfatória, estivemos algumas vezes em combate. A cada três poemas que escrevo, dois estão condenados às chamas. Quase um ritual literário.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

A construção de um universo mágico que me emocione e, consequentemente, emocione o leitor. Transformar a literatura num oceano de prazer. Não é fácil. Exigente, faço questão que o texto ou o poema me comova. É a minha principal preocupação. Acredito que a única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Ele deve ser amado se é um bom escritor. Faulkner dizia que qualquer tragédia de Eurípedes vale mais do que punhados de boas intenções.

Quais os planos literários para o futuro?

Ando encalhado num romance há alguns anos, “Homem Sem Caminho”, versão moderna da pequena narrativa clássica “Carmen”, de Merimée. Passei um verão inteiro na Andaluzia visitando os lugares citados no livro, enquanto lia e relia a história. Está praticamente pronto, é uma questão de ajustes. Pretendo concluí-lo rapidamente e pela primeira vez na minha história enviar para apreciação de sólidas editoras. É obra polêmica, protagonizada por um casal homossexual. Fala de imigração ilegal, prostituição, entidades espirituais.

Quem é a escritor Antonio Nahud?

Uma figura fascinada por diversas coisas, desde paisagens geográficas a fábulas imateriais, vivendo nessa intensa troca de sensações para continuar pulsando. Não é um coração excitado por ambições, sua vida não é um show ordinário, por uma questão de temperamento não desfruta do descartável. Tampouco é escritor humorado; é coração que denuncia, protesta, chora, questiona. De acordo com o mestre William Faulkner, um escritor precisa de três coisas: experiência, observação e imaginação. Sendo que duas delas podem suprir a falta da outra. Creio que o escritor Antonio Nahud tem tudo isso.
  

julho 31, 2016

......................... CESÁRIA ÉVORA – A DIVA DESCALÇA



Antonio Nahud
Sevilha, Espanha. 2002.
Entrevista publicada no jornal A Tarde, Bahia.

Ilustrações:
EMILIANO DI CAVALCANTI
(1897 – 1976)


De pés descalços e copo na mão, CESÁRIA ÉVORA passou boa parte da vida cantando para marinheiros gringos de passagem pela Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Em troca, moedas e noitadas divertidas. Cansando da difícil vida fácil, passou dez anos sem cantar, enquanto enfrentava o alcoolismo. Voltou a fazê-lo profissionalmente, no final dos anos 1980, convidada por amigos para gravar um disco e mais adiante apresentar-se no parisiense New Morning Club. Os franceses se enamoraram dela, produzindo seus primeiros trabalhos: “La Diva aux Pieds Nus” (1988), “Mar Azul” (1991), “Miss Perfumado” (1992) etc.

Com voz de quem muito sofreu, ela conquistou meio mundo. Nasceu em Cabo Verde, arquipélago árido e vulcânico, ex-colônia portuguesa. Filha de cozinheira de mão cheia e músico que tocava cavaquinho. Aos 61 anos, apresenta-se na Europa, seguindo para o Japão, América do Sul e do Norte. Uma vitória respeitável para uma pobre garota negra que durante muito tempo cantou em casas particulares, navios e bares, ganhando quase nada. Seu mais recente álbum musical, “São Vicente di Longe” (2001), tem arranjos do nosso Jacques Morelenbaum. Caetano Veloso canta numa das faixas.

A diva de pés descalços superou os homens e o álcool, restando o canto, mas promete também deixar de cantar em breve: “estou velha e cansada, quero estar tranqüila na minha terra”. Fumando SG, cigarro português, num bar sevilhano, conta sua história.

A senhora começou a cantar influenciada por seu pai, um músico?

Quando criança costumava ver meu pai cantar com meu tio, um compositor, mas nem me passava pela cabeça que seria cantora. Meu pai não me incentivou para a carreira musical. Meu avô também foi um grande músico. Mas quando resolvi cantar todos eles já estavam mortos.

Como foi o seu início musical?

Eu tinha dezesseis anos e um amigo chamado Iduardo tocava seu violão. Não sei por que cantei, mas cantei baixo, muito baixinho. Ele ficou me olhando e disse: “Canta mais alto, Cize”. Cize é como os meus amigos me chamam. Eu cantei mais alto e daí em diante passei a cantar nos bares e nos navios de guerra. Os marinheiros gostavam da minha voz, me ofereciam bebidas e moedas. Passei muitos anos assim, com os meus sentimentos diante de homens de várias raças.

Com o fim da colonização e a seca que tomou conta das ilhas, os navios desapareceram e os bares ficaram vazios.  Foi aí que deixou de cantar?

Eu não queria saber de política e então fiquei na minha casa durante dez anos. Nada de cantoria. Em 1985 fui com uns amigos gravar um disco em Lisboa e três anos depois nos apresentamos em Paris. Então comecei a ganhar dinheiro com a música.


A senhora foi descoberta pelos franceses?

O meu êxito internacional teve início na França. Foram os franceses que primeiro apreciaram a minha voz e me convidaram para gravar. Eu sou muito grata a eles. Fui bem recebida pelos imigrantes do meu país que vivem na França e também pelos próprios franceses. Com “Miss Perfumado”, meu quarto disco, a imprensa falou muito do meu trabalho. Desse reconhecimento passei a ser convidada para viajar.

Muitos não entendem o que diz, já que canta em crioulo, mas mesmo assim se comovem com sua voz.

As pessoas percebem o sentimento, a força da música. Eu não entendo o português perfeitamente, mas gosto de muitas músicas brasileiras. Música é música em qualquer lugar do mundo.


Disse que gosta de música brasileira...

Os brasileiros e os cabo-verdianos se completam musicalmente. Ambos colocam sentimentos no trabalho musical. E usamos o mesmo tipo de instrumentos.

Como foi sua colaboração com Morelenbaum em “São Vicente di Longe”?

Ele fez a maior parte dos arranjos. Gosto muito desse disco, tem uma grande contribuição internacional. Foi quase todo gravado em Cuba, e faço duetos com Compay Segundo e Caetano Veloso. É muito parecido com meus outros trabalhos. Eu não pretendo mudar minha maneira de cantar.


Declarou numa entrevista que pensa em aposentar-se em breve. É verdade?

Sim. Estou velha e cansada, quero descansar na minha terra. Se bem que a África está sempre em conflito. Mas Cabo Verde vive em paz e na seca. Como não temos minas de diamantes nem outros recursos, somente vulcões, nos deixam viver calmamente.

NOTA
CESÁRIA ÉVORA morreu em 2011, aos 70 anos. Ainda não havia se aposentado.



julho 16, 2016

.......................................... MORVAN: ENCONTRO MARCADO

morvan por antonio nahud, 2014

Não quero me prender a algo que me defina, 
prefiro acreditar na maior liberdade possível do Ser.

Morvan em entrevista a Daniela Pacheco
Jornal de Hoje, RN
17 de maio de 2012.

Fotos:
MORVAN FRANÇA


Magnífico fotógrafo, coração do bem, meu Amor. O que produziu e nos legou é de uma intensidade e densidade raras vezes vistas no Brasil em tal gênero artístico. Nasceu em 22 de maio de 1987, em Belo Horizonte. Geminiano irreverente, criativo e teimoso, como eu. MORVAN FRANÇA viveu um ano na Irlanda, outros tantos em São João del-Rei.

Imagens de sua autoria publicadas em blogues, revistas e jornais potiguares. Diretor fotográfico da revista “Ícone – Turismo e Cultura no Nordeste”. Sua “A Face Oculta” recebeu Troféu Cultura de Melhor Exposição de 2013 no Rio Grande do Norte. Morreu no dia 07 de julho de 2016, uma quinta-feira, em Galinhos, Rio Grande do Norte. Aos 29 anos.

Partiu desse planeta para nunca mais voltar. Parou de se questionar, e, certamente, foi muito bem recebido pela energia acolhedora do Universo. Nós vivemos juntos quatro anos. Ele me fez rir, sonhar, preencheu-me com sua presença bonita e vasta sensibilidade. “A arte tem o papel de nos elevar um pouquinho, por curto espaço de tempo, do nosso próprio egoísmo”, disse-me na primeira conversa.

antonio nahud por morvan
Ao conhecê-lo, estava há uma semana em Natal, vindo de Minas estudar biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sem relações na cidade. Apenas um príncipe solitário. Um príncipe que citava o mestre Rosa: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”. O meu coração disparou. E felizmente, o dele também. É difícil não nos sentirmos incendiados num romance sem vilania e ao mesmo tempo tranquilo, sossegado, onde coube a arte e o seu reverso, a emoção, sem se estorvarem mutuamente.

“A bolsa tem prazo de validade de seis meses, logo voltarei”, avisou-me após o beijo que selou o encantamento. Louco de amor, percebi estar diante do Rimbaud sonhado desde sempre. Iniciamos ali um eletrizante encontro de sentimentos emblemáticos. Pura fatalidade. ENCONTRO MARCADO pelo destino.

Nunca mais voltou de vez a sua estimada terra. E não gostava nem um tiquinho de Natal ou da vivência universitária local, desiludido com professores e colegas. Saudoso de São João del-Rei, queixava-se. Ranzinza, dizia que no Brasil as diversões idiotas tomaram o lugar da cultura. Com educação e firmeza, enfatizava o sublime vazio generalizado.

O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.

GUIMARÃES ROSA
“Grande Sertão: Veredas”

morvan e antonio nahud em galinhos, 2015
Logo nos primeiros dias, deixou a república de estudantes, veio morar comigo, inicialmente no bairro do Satélite. “Não namoro sério. Minhas histórias são sem compromisso, afirmou, desconfiado, continuando: “Não pretendo me casar”. Não foi o que aconteceu. Durante anos grudamos. Contou-me seu passado familiar, estudantil e amoroso. Recordações da infância na fazenda do tio. Revelei-me através da arte. Sobre a vida real, 100% não dava, MORVAN ciumava brabo!

Nossas conversas resgatavam, seguramente, a excelência da vida, cujos assuntos transgrediam a forma do debate comum, vislumbrando não só o relato dos acontecimentos cotidianos, bem como da visão da literatura, das artes plásticas, da religião, da ciência, passando pela dor do existir, pelos problemas decorrentes da profissão de escritor, sem falar nas incursões pelo cinema e teatro, por exemplo, e mesmo sobre as relações homossexuais.

Contei dos dias de aventureiro. Uma narrativa longa, prolixa, cheia de pormenores. Falei das ruas de Tanger, de alegres passeios a Baello Claudia. E das tardes passadas no bosque La Selva, deitado na relva, dos banhos de mar. Era uma história que eu expurgara cuidadosamente o erotismo, evitando conflitos.

Nas conversas sem fim, varando madrugadas, lembrei que há cidades belas e cruéis, como Rio de Janeiro. Ou elegantes e céticas, como Berlim. Ou densas e obsessivas, como São Paulo. Recordei para ele o ano passado em Londres. Céus cinzentos e gente indiferente como a própria natureza. Não havia sentimentalismos, nem excessos de paixão, nem verdades com maiúsculas. 


Trocávamos identificações artísticas. Um sugerindo ao outro fascínios cinematográficos, literários, musicais, fotográficos. Ele não suportava shows. Eu tinha visto todos os shows do mundo. Entretanto, muitas vezes, repentinamente, ele fazia espetáculo para mim, em casa. Cantava, dançava, interpretava poemas. Eu estava no paraíso das ilusões.

Guardamos os segredos ao lado de tudo o que não dizemos. Nesse grande sótão escuro há de tudo, há aquilo que não dizemos porque temos medo, porque temos vergonha, porque não somos capazes; há aquilo que não dizemos porque desconhecemos, ignoramos mesmo, apesar de estar lá, em nós. Os segredos são assim. Eles estão lá, podemos visitá-los, assistir a eles, sabemos as palavras exatas para dizê-los e, muitas vezes, temos tanta vontade de contá-los. Mas escolhemos não o fazer.

Passávamos horas jogando Quest, vendo documentários, cozinhando. Ele cozinhava bem. Principalmente massas. Utilizava receitas muito simples, mas o resultado era uma explosão de sabores. O seu espaguete à carbonara era maravilhoso. Nos finais de semana de boa disposição, arranjava os pequenos defeitos da casa, de descarga quebrada a pia entupida, numa extraordinária habilidade manual.


Todas essas Presenças em Ti: Estrelas, insetos, as árvores, a água, o fogo, o sangue, os ossos, respirações, os Olhos, os outros homens, tudo isso vivendo, / como se vivesse / Flor das mais estranhas. / E tu estás em todas, / e Todas / estão em ti.

VICENTE FRANZ CECIM
“Canção da Criança Mais Alta”

Aprendia violão dedilhando Bossa Nova, outras vezes utilizava a cozinha para treinar ágeis passos de capoeira. Ele não sabia, mas a beleza desabrochava em cada uma de suas provocações naturais. Eu alimentava suas excelentes vontades artísticas. Pena que quase sempre ele perdia o interesse no meio do caminho.

Incentivei o fotógrafo ao perceber o seu talento nato em retratos meus, e a satisfação que fluía dele ao fotografar (odiava ser fotografado!). Esboçamos um projeto para esse sonho vingar, desde a aquisição da boa máquina fotográfica à exposição do lançamento oficial, “A Face Oculta”. Apresentei a MORVAN fotógrafos e pensadores, de Susan Sontag a Gilles Deleuze, de Pierre Verger a Miguel Rio Branco, de Henri Decae a Sven Nykvist.

Ele tinha dificuldade em absorver a rotina, prazos, horários, estabilidade. Acordava tarde, estudava pouco. Ouvia com prazer Nina Simone, Beck, Uakti, Ednardo, Mozart, Jim Morrison, Janis, Chet Baker, Amy, Zeca Baleiro, Cássia Eller, Miles. Beijava-me inesperadamente, jogava-me no chão, rolava os nossos corpos como se fosse menino.

luminária desenhada e executada por morvan
Praticamos leituras domésticas de peças teatrais. “Romeu e Julieta”, “Branca Dias”, “Bodas de Sangue”. Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Oscar Wilde, os meus textos. Ele interpretava e dirigia, interrompendo a leitura para me criticar. Furioso, dizia que eu não me concentrava, não mergulhava na alma da personagem. Era verdade. Às vezes ele jogava o texto na parede, outras recomeçava do primeiro ato. De expressivo talento dramático, poderia ter sido um ator de renome.

Numa noite, embriagados, ele se emocionou com a minha fala sobre Ítaca. Não fosse a Ítaca de Homero – ou o longo caminho de volta -, não fosse a vida. Um outro poeta grego, Konstantinos Kaváfis, abordaria diferente este caminho de volta, criando uma das mais belas metáforas da jornada em busca de nossos sonhos. Enquanto na Odisséia o drama se concentra nas dificuldades de chegar, e no sofrimento da mulher amada, na poesia de Kaváfis ele pede exatamente o oposto a Ulisses: que aproveite o caminho, e viva tudo o que precisar viver.

Quando você partir, em direção a Ítaca,
que sua jornada seja longa
repleta de aventuras, plena de conhecimento.

Não tema Laestrigones e Cíclopes
nem o furioso Poseidon;
você não irá encontrá-los durante o caminho,
se você não carregá-los em sua alma,
se sua alma não os colocar diante de seus passos.

Espero que sua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
e que o prazer de ver os primeiros portos
traga uma alegria nunca vista.
Procura visitar os empórios da Fenícia
e recolha o que há de melhor.
Vá as cidades do Egito,
e aprenda com um povo que tem tanto a ensinar.

Não perca Ítaca de vista,
pois chegar lá é o seu destino.
Mas não apresse os seus passos;
é melhor que a jornada demore muitos anos
e seu barco só ancore na ilha
quando você já estiver enriquecido
com o que conheceu no caminho.

Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.
Ítaca já lhe deu uma bela viagem;
sem Ítaca, você jamais teria partido.
Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar.

Se, no final, você achar que Ítaca é pobre,
não pense que ela lhe enganou.
Porque você tornou-se um sábio, e viveu uma vida intensa,
e este é o significado de Ítaca.

antonio nahud, morvan, ana cláudia e juninho
Recebemos visitas de seus pais amorosos, do irmão; e da melhor amiga, uma belga, Véronique. Ele lembrava algumas vezes de ex-colegas mineiros que gostava. Não levava a sério nossos conhecidos. Dissimulados, desejam nossa separação, criticava. Jantando com ele e amigas, meio alto de vinho, contei detalhes pitorescos de um antigo relacionamento com um norte-americano. Ele permaneceu em silêncio, sinistro. No dia seguinte entregou-me uma folha seca, enorme. Nela, escrito em nanquim fragmentos de Clarice Lispector em “Água Viva”, um dos seus livros favoritos. Guardo essa relíquia:

Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Assumo a minha solidão. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa. Guardo teu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.

Renasci com MORVAN. Deixei o mundo ordinário. Nada mais me parecia cintilante. Seria capaz de ir a lua com ele. Desejava passar os últimos anos de vida nos seus braços. Conheci-o profundamente, talvez mais do que ninguém. Enxergava a melancolia e a fragilidade mais secretas.

Cuidei dele com ternura. Arquitetei felicidades, inclusive visitar lugares ermos formosos por natureza. A gente amava esses recantos silenciosos, e nos metamorfoseávamos em peixes, pássaros, insetos e árvores que tomam vinho tinto e copulam em qualquer lugar sem ninguém à vista. 

Antonio Nahud por Morvan


Ele, eu, a máquina fotográfica e a beleza do mundo natural. Quase sempre de motocicleta, desbravamos o Rio Grande do Norte e a Paraíba, conhecemos vistas preciosas em boa parte do Nordeste, de cavernas ao Pico do Cabugi, de rios a matas. Sonhamos em juntos investigar o Brasil profundo.

Dezenas de viagens minuciosas. Salvador, Lagoa Encantada, Lençóis, Chapada Diamantina, Ilhéus, Maxaranguape, Boca do Rio, Galinhos, Gargalheira, Pedra da Boca, Martins, Gostoso, Pipa, João Pessoa, Búzios, Extremoz, Una, Cunhaú, e muitas muitas outras. Mil e uma aventuras lúdicas, sem traição, nem mesmo tentação.

O que não podia suportar era aquele estado vulgar das coisas, aquela sufocante apatia que lhes dava um ar de seres que se consomem num lento aniquilamento. Por momentos, parecia esquecer-se de tudo. Mas eis que de repente, a um golpe ou a um ruído, a angústia voltava a obsedar-lhe a alma. Ele não tinha sentidos senão para sofrer e desejar inutilmente. Cansado das suas lutas estéreis, recostara a cabeça e, cerrando os olhos, procurava sufocar o tumultuoso transbordamento do coração.

LÚCIO CARDOSO

antonio nahud e morvan em 2010
Bastava andar por aí. Não ter pressa. Cada lugar era um filão. Estar sentado num bar humilde, bebendo água de coco, e depois seguir o fio da meada que podia começar numa palavra, num encontro, no amigo do amigo de uma pessoa com quem acabamos de nos encontrar, e o lugar mais insípido, mais insignificante, transformava-se num espelho do mundo, numa janela aberta para a vida, num teatro da humanidade diante do qual poderíamos deter-nos sem necessidade de ir a mais lugar nenhum. O filão estava exatamente onde nós estávamos. Bastava abrir os olhos.

Em 2011, meu aniversário, 13 de junho, deu-me fotografia emoldurada. Impressionante composição de búzios, líquens, folhas mortas, raízes, sementes, água-viva. Entre a imagem e o vidro de proteção, grãos de areia e conchas do mar, soltos.  Belíssimo. O meu romantismo típico se assanhou de êxtase. No fundo do quadro, ele escreveu em grafite:

Que deste silente objeto
Surjam leves asas
E que estas voem em ti
A poesia que quis
Mas não tive.
Com carinho.
Morvan.

Em parceria, lançamos livros, exposições e a revista “Ícone - Turismo e Cultura no Nordeste”. “A Face Oculta” (dedicada pra mim), “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” (dedicado a ele), “Orbitarium”, “O Livro das Revelações”. Arte planejada, discutida, consagrada em pleno sexo. Recitais poéticos-musicais e festas temáticas. Focado na experimentação, entre 2010 e 2014 o artista registrou em suas lentes imagens intimistas, destacando a majestade e a fragilidade do homem e da natureza.

orbitarium, instalação de morvan-nahud
Lutamos por um projeto que não se realizou, a exposição fotográfica “Solipsismos”, representada através de 35 fotografias, instalações e vídeo. De constituição afetiva, objetivava despertar uma reflexão crítica acerca da sua temporada potiguar. Harmônico e impactante. Na instalação “Orbitorium”, 9 fotografias suspensas equilibravam meus versos, raízes, folhas secas, pedras.

MORVAN anotava versos em pedaços de papel, colocando-os sigilosamente em objetos que eu costumava utilizar. Ao calçar um sapato, encontrei um mimo de Manoel de Barros: “As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas querem ser olhadas de azul”. Eu me desmanchei de contentamento. Ele sorriu.

Ao perceber que ele transformava realidades vivas em nulidades moribundas, prudente, dispensava uma hora ou duas, vez em quando, para analisá-lo. Coletei num baú imaginário seus medos e traumas. Guardo dezenas de fotos. Guardo páginas de filosofia clandestina. Conheço-o pelo avesso, fui observador além do visível, eu estudei o amado microscopicamente.

Honrado em ter sido seu modelo oficial em centenas de fotografias. Nunca recusei seus convites. Completamente disponível a participar da inquietação fotográfica de MORVAN. Debaixo d`água, desnudo, dançando na praia, árvores, mafioso, série noir, homenagem a poeta Sylvia Plath, torre de igreja, mar, rede, chuva, sol escaldante, madrugada, aurora, árabe, morto, mascarado, intelectual. Autor dos meus melhores retratos. Também seu assistente, eu o ajudava na sugestão de cortes e seleção de imagens.


Numa noite, colou páginas de um velho livro no meu corpo inteiro. A face de fora, todo o resto colado. A seguir horas de fotos. Gentilmente, sem que eu pedisse, fotografou minhas manifestações artísticas, de lançamentos de livros ao Título de Cidadão Natalense. Em 2013 ganhamos prêmios, Troféu Cultura RN de Melhor Livro do Ano e Melhor Exposição do Ano. Ficamos bastante felizes. Passamos semanas comemorando a dois. Possivelmente foi o clímax da nossa cumplicidade.

Circulamos por várias cidades nordestinas, de Aracaju a Fortaleza. Nossa arte generosamente divulgada em jornais e blogs, programas de tevê, inclusive em Portugal. Sobre o seu trabalho escrevi “A Alquimia Fotográfica de Morvan”, uma das postagens mais populares deste blog. Perdemos um grande artista! Um olhar arrebatador! Um mestre da luz!

Ele marcou-me com amor e arte. Dois meses realizando pacientemente uma serpente de tampinhas no jardim da nossa casa. Pintou a parede inteira da sala de delicados arabescos cor de abóbora. Colou pedras coloridas no banheiro.

antonio nahud, josé inácio vieira de melo e morvan frança
A paisagem era clariciana. Os dois amantes lendo, relendo, matutando. Segundo a moça inominável, exata no seu mundo fragmentado: “Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Mundo redoma de vidro, impregnado com as impressões digitais de algum deus desaparecido. Mundo excêntrico, parecido ao imaginário alucinado de Hieronymus Bosch. Isso vislumbrei num sonho. Tomei essa imagem de empréstimo tão logo acordei e comecei a sentir certo alento existencialista vindo do lugar abençoado onde a nossa arte se recolhia. Do naipe de Rilke, Beckett ou Camus.

MORVAN gostava de me dar presentes. Ganhei exótica luminária, versos, raízes, flores secas, pulseiras, desenhos, fotografias, livros, filmes, discos etc. Levavam sua assinatura, sua criatividade, seu jeito de ser. E afeição sincera, suave e discreta. Plantou um maracujazeiro no jardim. Ele cresceu, imenso, dando frutos e flores.

Subimos em um aerogerador do Parque Eólico Rei dos Ventos, em Galinhos, onde ele morreria meses mais adiante. 90 metros de altura. Uma arriscada peripécia. Essas máquinas, dependentes do vento, transformam energia eólica em elétrica.

morvan recitando poemas de antonio nahud
Não media palavras para falar de meus sentimentos e visões, entregando ao amado, de forma aberta, meu pensamento e leitura do mundo. Entre nós, sexo todos os dias. Anos a fio. Às vezes pela manhã e à noite. No chuveiro ou no quintal, na chuva. Não me recordo de brigas ou discussões. Raros desentendimentos. Havia respeito, querer bem.

Ele sentia inesperadas dores de estomago ou de cabeça, gripes, feria-se, queimava-se. Eu o tratava com chás, repouso, massagens, boa alimentação. Neste capricho apaixonado, descobri sua incapacidade para distinguir claramente entre a aparência e a substância, falta de aptidão para o trabalho cotidiano, egoísmo, atitudes desordenadamente infantis e torpor mental (descartando o bom senso).

A montanha muito alta, em cima árvores resistentes, rochas, ventos e nuvens cheias de imagens e cores, eu e ele, e sobre a planície distante as nuvens dissolviam-se e não se via mais do que um mar de céu e de terra desolada que se estreitavam num abraço apaixonado.

O infinito dentro de mim. Ele colaborou profundamente no mais íntimo. Viveu comigo muito tempo. É no infinito misterioso que habitamos Deus… E mesmo despovoado, é ainda o lugar onde tiro força e esperança.


Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

GUIMARÃES ROSA
“Grande Sertão: Veredas”

Nunca deixamos de nos amar. Numa de suas mensagens, revelou-se: “Escrevo do fim do mundo. É preciso que o saiba. Será que a vida na terra não poderia prosseguir sem o nosso amor? Ou será preciso que tudo trema sempre, sempre?”. Profundamente emocionado, não respondi. Desconheço a resposta.

O silêncio sopra poesia. A vida prosaica insiste que é a mais forte; aliás, a vida prosaica é o norte da maioria nessa bússola que nos guia pelos sete mares. Eu, com minhas velas abertas para ventos que não sei bem de onde vem e para onde me levam; ele, com seus remos afundados e seu sorriso irônico, à espera do enigma que, talvez, possa ser um caminho para esse lugar nenhum onde seu deus descansa depois da criação.

Por trás de cada palavra esconde-se a alma, o hálito de ágeis movimentos e o arremate arredio dos olhos que acompanham as linhas na telinha. O mundo se torna um sonho nesses devaneios. Sonho que não sonho, mas que me leva adiante, a um mar sem ondas onde um dia erramos o lugar de nossa fábula-encontro. O que era uma bússola a guiar sonhos, hoje é apenas uma delicada concha talismã, e olhos incômodos em enleios poéticos nesse mar azulado de saudade.

euzner telles, roberta reis, antonio nahud e morvan frança
em ilhéus, bahia.
Ele morreu em Galinhos, noite (assim acredito, não sei ao certo) de 07 de julho de 2016. Por livre e espontânea decisão maluca. O sepultamento do corpo aconteceu no domingo, 10, no Cemitério Público Nova Esperança, Conjunto Pirangi de Dentro, em Parnamirim, às 10h00 da manhã.

Visitarei sua última moradia em vida. Quero conhecer a casa em que morreu, mergulhar no mar, caminhar descalço na praia em que ele caminhava. À noite, farei fogueira e interpretarei poemas. Será o ritual de despedida, depois da dor que quase mata. 

Como dizer a ele que já não havia tempo para tudo, que não havia tempo para cada coisa preciosa? Eu podia ter dito que o (a)mar ainda é grande, e que talvez eu não conseguisse me livrar da falta de ventos e, sem eles, jamais encontraria qualquer possibilidade de atravessar mares simbólicos. E cada palavra se fazia mais abstrata, e nenhum sopro lírico parecia dar conta das frases, e todos os olhos carregavam olhares suplicantes. Por que insisti em não lhe dizer que ainda o amava? Não penso mais respostas e, tão logo termine de escrever o que logo será público, volto a abençoar a velha solidão, uma velha saudade, o meu velho mundo, o único em que ainda posso traçar, em palpitações ternas, sem mágoas, perdoando, um destino de floresta e palavras em flor.

Foi lindo conhecê-lo, MORVAN FRANÇA. Gratidão. Descanse em paz, amado, vá ser estrela no firmamento. Valeu 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Obrigado por tudo e desculpa por tudo: das bondades às saudades. E não é novidade pra ninguém que toda escolha é, de alguma maneira, uma troca. É preciso deixar alguma coisa para poder conquistar outra.

Seu “eu é um outro” ainda brilha aqui e acolá em mim. De nada valem as letras que tentam ignorar fantasmas. Talvez aqui espere pela próxima lufada de vento, talvez aqui em mim sejam despertas novas palavras com as quais inventar um novo mundo, no qual vomite o desconforto existencial. Mas tudo isso são conjecturas, como as sensações das palavras-passarinhos de Clarice: “Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos”. Só resta dizer... Eu te amo, MORVAN. Sinto pela partida brutal. E fim. Do seu remetente clariciado. Antonio.

morvan fotografado por antonio nahud (morvan amava essa foto!)

SE MORVAN FOSSE...

UM LIVRO
“O Lobo da Estepe”
(Der Steppenwolf, 1927)
de Hermann Hesse

UM FILME
“Na Natureza Selvagem”
(Into the Wild, 2007)
de Sean Penn
ou
“Lavoura Arcaica”
(2001)
de Luiz Fernando Carvalho

UM CINEASTA
Andrei Tarkovski

UM ATOR
João Miguel

UMA CANÇÃO
“Aquarius”, do musical “Hair” (1979)
UM CANTOR
Ednardo

UMA CANTORA
Nina Simone

UMA BANDA
Morphine

UMA CIDADE
São João del-Rei (MG)

UM PAÍS
Irlanda


UM ESCRITOR
Clarice Lispector

UM POETA
Fernando Pessoa

UM PERSONAGEM
Hamlet

UM PINTOR
Francis Bacon

UM ARTISTA
Andy Goldsworthy

UMA COR
Cinza

morvan na chapada diamantina (foto de antonio nahud)
UM FOTÓGRAFO
Pierre Verger

UM PÁSSARO
Colibri

UM INSETO
Libélula

UM ANIMAL
Dinossauro herbívoro

UMA FLOR
Flor de Maracujá

UMA ÁRVORE
Gameleira


POETIZANDO para MORVAN sob o olhar de HENRI MICHAUX

01
O coração é algodão e silêncio,
disse-me Henri Michaux.
Silêncio que tudo imobiliza.
Silêncio de estrelas.

02
Posso dizer que o êxtase da viagem
ou da beleza ou da arte em cada esquina
me faz bem e os amo Amo as coisas
Amo a história o mistério e o olhar inspirado

03
Que faço eu aqui?
Chamo.
Chamo.
Chamo.
Não sei quem chamo.
Quem chamo não sabe.
Chamo alguém longe,
Alguém perdido longe,
Alguém de outro mundo.
O chamamento espanta-me.
Chamo ainda que seja tarde.

antonio nahud e morvan frança em 2014
04
Amor na cidade golpeada pela história
amor encantamento
na ponte de pedra
no sino de bronze, no trem, no gótico
nos personagens que cantam em praças
no rio gordo de mistérios
amor de fio de seda
amor metafísico
amor nostálgico que faz sorrir
amor de larva eletrizada vindo morder à superfície
amor no charme discreto de Lampião
amor em falta pronto para avalanches

05
Aos filmes, aos filmes, aos filmes,
Semelhante à ilusão,
Semelhante ao sonho,
À lágrima vertida, à lua nova
À uma tarde de chuva
À invenções de Oshima e Truffaut
Ao cinema, em qualquer língua,
Sempre.

06
A terra fria é das carícias
do famoso e do ingrato
dos piratas e amantes
com dor ou dinheiro
tudo passa
tantos mortos levam consigo
livro que nunca escreveram
um amor sufocado
e num recanto de pedra
a solidão eterna

no momento em que morvan soube que o livro
de antonio nahud era dedicado pra ele

07
Preciso de arte, e beleza, é a minha saúde.
Preciso de uma cidade inventada,
com bosques de Sintra, luz de Barcelona,
intensidade de Paris e o céu de Natal.
Preciso dos passos ao vento, de um rio fogoso.
Preciso do consumo do silêncio.
A ignorância é sempre dura.
A violência é sempre dura.
A solidão é sempre dura.

Este é o reverso da medalha.
E não há nada a fazer.

08
Aqueles que são o farol-poesia
em torno
desova, isso,
isso desliza, vai, funde
refaz-se
a esperança

09
Rebenta pelos poros.
Em sensações, lâminas, cristal,
em jatos de saudade.
Cheio de floresta.
Cheio de ondulações.
Cheio de borboletas.
Cheio de chuva.
Acalentando o próprio coração.


10
Como se no meio da cidade
Na velocidade
Na saudade
Na maldade à toa
Nessa claridade, tanta coisa boa se desmancha
feito picolé ao sol
E feito picolé ao sol eu quero estar agora
Pra esquecer do mal que tá lá fora
Me esperando pra cobrar a taxa

 11
Esta é a vida, a vida inspirada na beleza.
Se ela desaparece, procuro-me.

12
Aquele que meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
ensinando a enxergar o indócil bem-querer
sabe que para todas as distâncias
há aves enlouquecendo de nostalgia
e a emoção entre os seus dedos ausentes
é a espada que os reis ungiam
enfrentando a ameaça das noites

em que tudo acorda


13
Vai sem mim, vida minha, vai.
Caminha invisível,
Até o outro lado da chuva.
E eu danço à beleza.
E assim digo adeus.
Nunca o persegui.

Não vejo bem o que existe em dádivas.
O pouco que desejo, nunca me traz.
Por causa desta falta aspirei a tanto.
A tantas coisas, ao infinito quase.
Por causa deste pouco que falta,
do pouco que nunca foi capaz de trazer.

14
Há, quase sempre,
uma voz a murmurar
por detrás
de outra voz

Há a realidade prateada
um berro dentro de mim
saudade medonha
um viver-desvivendo

Lá fora, constelações íntimas,
a luz solar, o sem nome
a palavra-passarinho
fagulhas no texto

Esta tarde reparei
o tempo no corpo
esperando e recordando

GALERIA de FOTOS


morvan por antonio nahud
LUCIANA OLIVEIRA entrevista
MORVAN FRANÇA e ANTONIO NAHUD
no PROGRAMA VIRTUALL


ÚLTIMA FOTOGRAFIA de MORVAN
Galinhos (RN), junho de 2016