setembro 11, 2016

.................... LÚCIO CARDOSO: FEBRE, ANGÚSTIA e ULTRAJE



Ilustrações: LUÍS CLÁUDIO MORGILLI 
e RICARDO ARDENTE

Não era uma medalha, nem um escapulário, o que batia ali contra meu peito – era apenas a chave do quarto onde Deus me havia tão cruelmente ferido. Decerto o problema supremo é este, Deus e o homem, mas, por mais que faça, não posso imaginar Deus afastado do amor, de qualquer amor que seja, mesmo o mais pecaminoso, porque não posso imaginar o homem sem o amor, e nem o homem sem Deus.


Autor de um dos romances mais cultuados da literatura brasileira, “Crônica da Casa Assassinada” (1959), o mineiro LÚCIO CARDOSO (1912 - 1968), nascido em Curvelo, inaugurou na literatura brasileira um mergulho no intimismo, enfatizando os dramas, as dúvidas e os questionamentos existenciais. Sua escrita teria imenso impacto sobre a obra de Clarice Lispector, de quem foi amigo e mentor. Quando se conheceram, em 1940, Clarice tinha 20 anos, e Lúcio - brilhante e sedutor -, 28. Ela se apaixonou, mas era um amor impossível: o escritor era um homossexual assumido. Esse amor não correspondido a empurrou para a literatura. O amigo sugeriu o título de seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem” (1943). Foi ele, ainda, quem lhe mostrou que as anotações dispersas, que ela tomava às tontas e pareciam incoerentes, eram, na verdade, o seu método.

clarice lispector
Nos anos 1940, ele trabalhou incessantemente escrevendo peças de teatro, fazendo traduções e colaborando com crônicas policiais nos jornais. Escreveu diversos romances e roteiros para cinema, alguns filmados, como o clássico do Cinema Novo “Porto das Caixas” (1962), de Paulo César Saraceni. LÚCIO CARDOSO foi, no Brasil, uma das primeiras figuras conhecidas a assumir sua homossexualidade. Deixou em seu “Diário” (1961), escrito entre os anos de 1949 a 1951, relato bastante contundente sobre sua sexualidade, assim como as dúvidas e culpas geradas por sua formação católica.

Era extremamente carismático e afetivo, e a gente percebe isso no modo como a família sempre se referiu a ele — diz o também escritor Rafael Cardoso, seu sobrinho. — Ultimamente a mídia tem mostrado grande interesse pela sexualidade dele. É um assunto sobre o qual pouco se falava em família. Havia preconceito, claro, como em toda a sociedade brasileira, aliás. Mas de modo algum ele era rejeitado pela família. Ao contrário, era muito querido. (Depoimento publicado no jornal “O Globo”).

Em 1962, LÚCIO CARDOSO teve um derrame cerebral, que paralisou o lado direito do seu corpo, impedindo-o de escrever. Passou então a se dedicar à pintura e chegou a realizar exposições em vida. Morreu aos 56 anos vitimado por um segundo AVC. Seu talento foi reconhecido pela Academia Brasileira de Letras, que lhe conferiu, em 1966, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.


FEBRE, ANGÚSTIA e ULTRAJE

HÉLIO PÓLVORA
(1928 - 2015)
Publicado no jornal A Tarde / Cultural (BA)

É de 1934, publicado por Schmidt editor, o romance de estreia de LÚCIO CARDOSO, “Maleita”. Nascido em Curvelo (MG), 1912, ele chegou ao Rio de Janeiro para estudos, depois de passar por Belo Horizonte, e ali se fixou. Fez amizades com intelectuais de nomeada, incluindo o poeta Augusto Frederico Schmidt, que tinha uma editora e gostava de descobrir escritores novos. Foi assim com Jorge Amado, de “O País do Carnaval”, 1931, a quem dedica carta-prefácio altamente elogiosa. Ambos, Cardoso e Amado, foram precedidos literariamente por Rachel de Queiroz, a menina de 19 anos que havia escrito “O Quinze”, e José Lins do Rego, em 1932, com “Menino de Engenho”.

No caso especial de LÚCIO CARDOSO, um conterrâneo seu, Cornélio Penna, também estrearia àquela altura com “Fronteira”, 1935. O romance “Caetés”, de Graciliano Ramos, data de 1933. Nascia então o chamado romance de 1930, ou romance da terra, ou romance do Nordeste, que tem em Rachel e José Américo de Almeida, este com “A Bagaceira” (1928), os seus legítimos precursores, já que o Jorge Amado de “O País do Carnaval” era mais um agitador de ideias, ainda em busca de rumos, e a estreia de Graciliano Ramos traía leituras, estrutura e tema à moda de Eça de Queiroz.

Aquele romance brasileiro nascente refletia uma claridade solar forte, às vezes cegante. Estava-se em busca de assuntos brasileiros, faziam-se denúncias de condições sociais aflitivas. Estaria LÚCIO CARDOSO nesse caso? Apenas por imitação. Poeta antes de ser romancista, ou ambos a um só tempo, e pintor que se revelaria após o derrame cerebral sofrido em 1962, seis anos antes do seu falecimento, Lúcio Cardoso sempre primou pela frase ambígua, pela introspecção e por um sombreamento decididamente noturnal. Seu romance seguinte, “Salgueiro”, de 1935, ainda tem veleidades de representar a realidade sem fantasia – mas, a partir de “A Luz no Subsolo” (1936), ele se afirma pela introspecção, introjeção poética no eu profundo, gosto pelos mistérios da personalidade e pelos temas de decadência. A exemplo de Cornélio Pena, Lúcio Cardoso foi um penumbrista que ficou pouco abaixo da superfície (o título “A Luz no Subsolo” lhe assenta bem), enquanto Cornélio Pena se empenhava em descer mais, em diluir tudo o que houvesse de material no romance, dando-lhe uma feição poemática, quase sem contornos físicos – uma vaga fronteira em que poesia e prosa coexistiam e o factual, por mais que teimasse em vir à tona, era contido.

Serviu-se Lúcio Cardoso, em “Maleita”, de dados biográficos do pai, também chamado Joaquim (Joaquim Lúcio), um desbravador que, no final do século XVIII, saíra de Curvelo para fundar, junto a choupanas miseráveis à beira do rio São Francisco, a cidade de Pirapora, dela fazendo paragem de navios-gaiola e entreposto comercial. Grassava na época uma epidemia de maleita, que o romancista descreve por alto, em traços rápidos. Depois, quando as primeiras casas e armazéns já surgiam em Pirapora, veio a bexiga, ou varíola, trazida por um forasteiro. O lugar era bárbaro e resistiu ao toque civilizador.

Homens pescavam nus, mulheres nuas lavavam no rio. A noite era cortada por fogueiras e batuques regados a cachaça, com mortes. Um mulato sinistro, tido como feiticeiro, espalhava o terror – e, por se ter malquistado com Joaquim, prejudicou-o de várias formas e acabou forçando-lhe a retirada. A maleita fez o resto.

Neste romance, de fortes conotações sociais, de miséria explícita, Lúcio Cardoso se comporta um tanto friamente. É como se fora um pintor que, de pincelada em pincelada, pretendesse expor o desespero dos protagonistas. Numa sucessão de quadros, o romance é montado, não havendo também da parte do romancista o intento de dar-lhe densidade, seja pela força da escrita, seja pelo mergulho nos episódios. E embora “Maleita”, na bibliografia de LÚCIO CARDOSO, seja mais um marco histórico, um caminho quase plano para a mata escura do seu ficcionismo posterior, percebe-se já a mão que maneja os pincéis, que dá preferência às tintas mais escuras.

Um poeta está presente e cria frases que resvalam nos fatos para projetar um supra-realismo de semblante fantástico. A linguagem narrativa insiste em levantar-se do chão, na tentativa de buscar, no voo ainda curto e rasante, significados menos aparentes e menos óbvios. Aos poucos, na obra de LÚCIO CARDOSO, a realidade é por ele transfigurada. Depois de “Maleita” e “Salgueiro”, vem “A Luz no Subsolo”, escrito na surpreendente idade de 23 anos. Enquanto o romance de 1930 mantinha contato direto com a realidade imediata, mais física do que psicológica (Lúcio Cardoso voltava a um simbolismo de exacerbação místicas), nisso se aparentando com a tocante religiosidade de Cornélio Penna, com a diferença de que o seu romance, de Lúcio Cardoso, embora também de interiores, não está posto no círculo fechado do dogma. Em outras palavras, seu ficcionismo não era o desdobramento por assim dizer natural de um temperamento trabalhado pela crença – e sim obra de um cético que desejava crer, que provavelmente acreditava; ou, como observou Adonias Filho, tinha “um pressentimento de salvação”.


O romance “Maleita” ficou então banido nos barrancos do rio, o romancista mineiro ardia com outras febres. A partir de “Maleita”, o interior de Minas – Curvelo, Diamantina, Pirapora – se desvanece. Desincorporado, o romancista reaparecerá no Rio de Janeiro, onde protagonistas como o de “O Enfeitiçado”, tangidos como que por demônios, procuram inutilmente o rosto do filho – e, por metáfora, sua própria juventude, menos impura.

Em “Maleita”, o rio São Francisco, escuro, sereno, morno, se impõe como força da natureza. Em “A Luz no Subsolo” aparecem vagas construções do passado, desgastadas e envelhecidas, que à luz do sol expõem a profundeza de suas chagas. LÚCIO CARDOSO já insinua a decomposição familiar que se seguiu ao desabamento da sociedade patriarcal brasileira e será o tema de sua obra-prima, “Crônica da Casa Assassinada”. Ali, de espreita na zona de sombra, com a “carne incendiada de pecado”, segundo disse José Lins do Rego, Lúcio Cardoso surpreende suas criaturas em estado de tragédia absoluta. A tragédia não é consequência de fatos que as envolveram, a tragédia lhes é inerente. Os desdobramentos do romance a exacerbam e precipitam os desenlaces.

Antes de se enforcar, o homem de “O Enfeitiçado” estremece no reconhecimento final de sua verdade: “Se somos fantasmas, é que procuramos estabelecer uma realidade proibida”. As palavras finais de “O Anfiteatro” são simbólicas: “E, à medida que caminhávamos, víamos o azul subir por trás da linha suja das casas, como se alguém o soprasse do abismo”. Nas aflições dos personagens predominam uma angústia e um ultraje – esse ultraje que, talvez grafado com maiúscula, Ultraje, o romancista não quis ou não pôde desvendar por inteiro nos seus “Diários”. O determinismo é levado às últimas possibilidades de resistência (há, na Crônica, um, incesto praticado deliberadamente) e, muitas vezes, se faz vencedor. Um traço romântico? Provavelmente. Mas também uma metáfora da fé. É que, como disse Melchior de Vogüé sobre Dostoiévski, esses místicos escrevem também para curar. Sobretudo, para se curarem.

O ensaísta e contista grapiúna HÉLIO PÓLVORA é autor de “Estranhos e Assustados” (1966). Pertenceu à Academia de Letras da Bahia (ALB), Cadeira 29. Como jornalista e crítico literário, trabalhou em diversos veículos, como “Jornal do Brasil”, “Veja”, “Correio Braziliense” e “A Tarde”. Editou o “Cacau / Letras”.


OBRA de LÚCIO CARDOSO

Primeiras Edições

ROMANCE

MALEITA (1934)
SALGUEIRO (1935)
A LUZ NO SUBSOLO (1936)
MÃOS VAZIAS (1938)
O DESCONHECIDO (1940)
CÉU ESCURO (1940)
DIAS PERDIDOS (1943)
INÁCIO (1944)
A PROFESSORA HILDA (1946)
O ANFITEATRO (1946)
O ENFEITIÇADO (1954)
CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA (1959)
O VIAJANTE (Inacabada, 1970)
BALTAZAR (Inacabada, inédito)

POESIA

POESIAS (1941)
NOVAS POESIAS (1944)
POEMAS INÉDITOS (1982)

MEMÓRIA

DIÁRIOS (De 1949 a 1951. 1961)
DIÁRIO COMPLETO (De 1949 a 1962. 1970)

INFANTIL

HISTÓRIAS DA LAGOA GRANDE (1939)

TEATRO

O REDUTO DOS DEUSES (1929)
O ESCRAVO (1945)
O FILHO PRÓDIGO (S.D.)
O CORAÇÃO DELATOR (S.D.)
ANGÉLICA (S.D.)

CINEMA

ALMAS ADVERSAS (1948)
A MULHER DE LONGE (1949)
DESPERTAR DE UM HORIZONTE (1950)
COM OS OLHOS NO CHÃO (1959)
PORTO DAS CAIXAS (1962)

CONTOS

CONTOS DA ILHA E DO CONTINENTE (2012)
O CRIME DO DIA (2013)


FRAGMENTOS dos “DIÁRIOS” de LÚCIO CARDOSO

“É que o prazer não me interessa. Sempre o que me interessou foi o amor, e agora que vejo perder-se a possibilidade dele (ai de mim) sinto que não me interesso por outra coisa, e que o prazer sozinho não vale nada e não tem atrativos para mim.”

“Aproveito todas as aquisições da idade: afasto-me da carne pura e simples, sentindo que nela não há prazer e nem enriquecimento, mas somente melancolia e pobreza. Ah, existe um momento em que ser casto não é difícil — e a ele eu me atiro com todas as forças do ser. Não, não se pode imaginar a necessidade que eu tenho de pureza e de tranquilidade — minha impressão é a de que recomeço a viver.”

“Não sei se há em mim um vício central da natureza, sei apenas que é nela, nessa paixão voraz e sem remédio, que encontro afinidade para as minhas cordas mais íntimas.”

“Não é perder que me aflige – porque perdemos tudo, e seria inútil lutar. É perder dessa maneira, sem uma palavra, como uma flor viva que atirássemos ao fundo de uma sepultura. Ai, como eu me enganava, como eu me engano a meu próprio respeito! Julgo-me muito mais frio do que sou, e na verdade a ausência das pessoas me causa uma profunda perturbação. (Sei que despisto, que não me refiro exatamente ao que devo – porque ao certo, era de X, era da sua ausência que devia falar…)”

“Rompendo ontem com X, atingi o final de um movimento que vem caminhando há muito tempo. Pensando hoje nos detalhes, imagino que talvez tenha sido injusto mas, ainda assim, não é mais tempo para recuar, já que no futuro a única coisa que me espera é o longo trabalho que tenho a fazer. Pensando em certos detalhes da vida de X, sua pobreza, suas dificuldades, o escuro porão em que mora, sua timidez feita de orgulho e em geral suas dificuldades na vida prática, sinto uma enorme pena. É uma coisa triste não poder auxiliar as pessoas como seria necessário; mas também não posso me sacrificar mais e, tudo o que foi vivido, vai para este poço fundo onde guardamos as lembranças, algumas delas, como esta, das melhores de nossa vida.”

“Estranho dom: Deus deu-me todos os sexos.”


POEMAS de LÚCIO CARDOSO

A UMA ESTRELA

Meu domínio é o do sonho,
minha alegria é a do céu que a tormenta obscurece,
meu futuro é aquele que amanhece à luz do desespero.
Só tu saberás o segredo da minha predestinação.
Só tu saberás a extensão de tantas caminhadas,
só tu conhecerás a casa humilde em que morei.
Quem saberia romper o sortilégio que me cerca,
ó sol vermelho, aurora dos agonizantes.

Mas não reflitas nunca o gesto que condena.
Ai, este país é o da eterna aridez!
Se da altura a estrela não baixar o olhar ao pântano,
maior será a sua impiedade que o seu esplendor.

E só tu Vésper, só tu aplacarás o meu desejo,
só tu poderás depositar, nesta carne crispada,
o beijo que nas trevas dá ao sono a serenidade do repouso.

“Novas Poesias”, 1944


AMANHECER

A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca,
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sôbre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.

E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a musica das fiôres que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.

Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo côr-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.

“Poesias”, 1941


VELHA FORTALEZA

Vejo-te dormindo no silêncio antigo e forte.

Ouço as ondas que roçam tuas ilhargas de granito,
e o vento que desenlaça no espaço frio
a memória guerreira dos teus dias idos.

Sinto renovar-se em mim
o desejo desta vida que sonhei.
Ouço a voz das madrugadas sôbre as rochas
e o mar remoto que soluça
junto ao aço morto dos canhões...

E vejo, ó fria sentinela,
o teu vulto crescer na linha do horizonte,
como um estranho navio que ancorasse
junto à cidade descuidada,
vazia de heroísmo e mocidade!

“Poesias”, 1941


agosto 28, 2016

.......................... A SUNTUOSA HISTÓRIA de TAMARA


Beldade emancipada, moderna e sedutora. Majestosa nas noitadas parisienses, hollywoodianas e nova-iorquinas, sua vida e sua obra circulam entre mansões, hotéis de luxo e automóveis conversíveis. Bissexualidade assumida publicamente. Casos apaixonados com amigas, aristocratas, modelos, atrizes e desconhecidos. Tudo com muita classe, camuflando o abuso de cocaína, as dificuldades na relação com a filha única, a depressão, e, por fim, a solidão que também é notória em sua arte.

Se ela não se encaixa nos padrões convencionais da sua época, hoje teria todos os atributos admirados de uma celebridade da sociedade descartável. Em 1922, já morando em Paris, faz sua primeira exposição, e sua trajetória artística se amplia com inúmeras outras nos anos que se seguem, na França e em diversos países da Europa, e posteriormente nos Estados Unidos da América. A artista polonesa TAMARA DE LEMPICKA (1898 - 1980) ocupa posição privilegiada no contexto dos anos 1920: pinta membros da nobreza europeia e socialites, é amada e cobiçada por homens e mulheres, vestida por Paul Poiret e Coco Chanel, aluna de Maurice Denis e André Lhote, diva inspiradora de Greta Garbo, parceira de Jean Cocteau em noitadas, frequentadora íntima da Jet set elegante.

tamara em 1928
Ela faz de si uma representação icônica, demarcando os elementos principais que habitam o seu universo: arte, reconhecimento social, riqueza e luxo. Notável e memorável pintora da Art Déco (*), imprime extravagância aos seus famosos retratos, expressando erotismo em grande parte da sua obra refinada. Fascinada pelo corpo humano, ressalta a beleza em volumes carnais, utilizando sensatamente a luz em suave geometria.

(*) Expressão de origem francesa, Art Déco é abreviação de “arts décoratifs”, um estilo que afetou a arquitetura, o design e as artes plásticas no início do século 20. Edifícios, esculturas, joias, luminárias, móveis, tudo geometrizado e luminoso.

Nascida Maria Gurwik-Górska, perto de Varsóvia, em uma família abastada da Polônia, estuda em colégio interno na Suíça e tem uma infância privilegiada ao conhecer cidades e museus de diferentes países da Europa. Em 1916, casa-se com o advogado rico e bonitão Tadeusz Lempicki, que conhece em uma de suas estadias na cidade russa de San Petersburgo, em um baile de máscaras, resultando no nascimento da filha Kizette, em 1920. O casamento persiste até 1928. Durante os anos do matrimônio, TAMARA DE LEMPICKA relaciona-se com diferentes amantes, incluindo um príncipe, dois marqueses e o Barão Raoul Kuffner, com quem se casa após a morte da esposa dele.

Ainda na Rússia, em plena Revolução, Tadeusz é preso pelas forças bolcheviques, mas ela, influente, consegue libertar o marido. Fogem para Paris onde se estabelecem em Montparnasse, sem recursos financeiros. Ela adota o nome Tamara e vai estudar pintura. Ousada e inteligente, pronta para renascer, a artista termina por alçar uma vida suntuosa, de fama e fortuna. O primeiro passo foi brilhar na boemia vanguardista parisiense. “La Belle Polonaise”, como chamada, paradigma da mulher avançada e fina, fazendo a apologia à joie de vivre, ao consumismo, ao conforto, ao luxo. Transforma-se numa verdadeira diva, tanto que, pegando carona em seu sucesso, a empresa Revlon, fabricante de cosméticos, dedica-lhe uma marca de batom. 

tamara nos anos 20
Resolvendo pintar para pagar as contas, dedica-se mais seriamente à pintura por intermédio de André Lhote, com quem tem aulas. Tendo assim, como base, o cubismo, em que se alia o vanguardismo do cubismo com os motivos mais acadêmicos, sua obra assenta no rótulo de Art Déco, marcada pelo pós-cubismo no seguimento de Pablo Picasso e Georges Braque, e pelo neoclassicismo adaptando Ingres. No entanto, a artista vai mais além, ao atribuir uma grande intensidade psicológica e física às suas personagens, ao expor de forma crua e fria, os sentimentos e emoções daqueles que retrata e que são um reflexo dela própria. Por fim, depois de anos de dureza e aprendizado, ela conquista a esnobe sociedade parisiense na “Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes”, em 1925. Deslumbra com seu estilo peculiar, num notório sucesso profissional.

Cheia de vitalidade e louca por dinheiro, TAMARA DE LEMPICKA, uma das rainhas dos loucos anos 1920, frequenta inúmeras festas, cuida da filha única, apanha do marido, e pinta diariamente. Além disso, anda na farra com gente de prestígio: o escritor italiano Gabriele D’Anunzzio, que faz tudo para se deitar com ela; Gertrude Stein, Léger, Salvador Dalí, Marinetti – o conhecido “Auto-retrato no Bugatti Verde”, de 1925, é uma homenagem ao Futurismo -, André Gide, Jean Cocteau e um longo e espetacular etcétera.

Vive muitos anos ao lado do primeiro marido. Cansado do matrimônio fracassado, ele a abandona em 1929. Ela mergulha numa crise profunda, mas em 1933 volta a casar-se, desta vez com o rico Barão Raoul Kuffner, húngaro de origem judia como ela, o que lhe dá um título e muito dinheiro. Com a ameaça da Segunda Guerra Mundial, mudam-se para a América do Norte, onde a imagem da pintora extravagante se esvai, dando lugar à fama da elegante e divertida Baronesa TAMARA DE LEMPICKA-KUFFNER. As festas inacreditáveis que dão em Nova York contam com convidados do naipe de Greta Garbo, Tyrone Power, Joan Crawford, Orson Welles, Rita Hayworth, entre outros.

tamara em 1948
Abusada, a artista se define como “a primeira mulher que pinta bem em toda a história da arte”. Explica o seu êxito mediante uma pintura que, segundo ela, é atraente e concisa: “O meu objetivo é criar um estilo novo, cores claras e luminosas, desvendar a elegância dos meus modelos.” Nos anos 1950 sua arte perde o interesse dos ricos e famosos. Sem êxito, tenta o abstracionismo e o design de interiores. Na década de 1960, ao enviuvar, muda-se primeiro para o Texas e depois para Cuernavaca, no México. Em 1980, ela morre durante o sono, sendo que Kizette satisfaz o último desejo da mãe ao transportar as suas cinzas num helicóptero e espalhá-las no vulcão Popocatépetl. 

Trinta e seis anos passados, TAMARA DE LEMPICKA sobrevive na coleção particular de admiradores - como a cantora Madonna e o ator Jack Nicholson -, em álbuns de luxo e retrospectivas. Em sua obra, a mulher aparece ora feminina, ora masculinizada, mas sempre forte. A sua paixão pelas tintas fortes e de cores iluminadas, expõe de forma crua e fria, os sentimentos e emoções, extravagância e sensualidade. Reflexo dela própria, uma personalidade amante dos excessos.