novembro 15, 2016

................................. CAIO F. - A VIDA APESAR DE TUDO



E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
HILDA HILST

Ilustrações:
BERNARD BUFFET
(1928 - 1999)


De acordo com o escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, é na literatura que reside “o esplendor da linguagem. Um povo sem literatura é um povo sem alma, sem história, sem memória.” Infelizmente, a maioria dos escritores não permanece, não resiste ao tempo, isso é óbvio. Não é o caso do gaúcho CAIO FERNANDO ABREU (1948 – 1996), vinte anos após sua morte, o autor de “Morangos Mofados” (1982) continua sendo lembrado. Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões.

Conheci CAIO FERNANDO ABREU pessoalmente, fomos amigos. No inverno de 1989, ao chegar a Registro, pequena cidade no interior de São Paulo, soube que eu dividiria quarto de hotel com ele, o homenageado de um encontro de literatura marginal, coordenado por Leila Miccolis e Urhacy Faustino. Como um dos escritores convidados, passamos três dias numa correria de palestras, entrevistas, leituras poéticas, restaurantes e bares, sem tempo para conversa mais profunda. Ele, ferino e resmungão, não parecia feliz.

Sombrio, magreza excessiva e grandes olhos de desalento davam ao escritor um aspecto vampiresco. Muito jovem, fiquei assustado com a sua dor travada, evitando estar ao seu lado o máximo que podia. Na última noite, após bebedeira em um restaurante, conversamos sobre literatura e cinema. Ele se empolgou ao recordar a atriz Odete Lara, um dos seus ícones, e me tratou com aspereza ao ouvir que eu só lera uma única obra sua, o citado “Morangos Mofados”, talvez seu único sucesso, deixando evidente a fome de reconhecimento. Caminhamos pela cidade deserta, fomos barrados num clube suburbano proibido para brancos e houve um momento, num curto espaço de tempo, em que ele me deu sua mão, e andamos assim, íntimos.

caio, lygia fagundes telles, robby cardoso e hilda hilst
No ano seguinte, em São Paulo, nos reencontramos duas vezes numa mesma semana: nas residências de Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. Eu trabalhava na Editora Siciliano, braço direito de Pedro Paulo de Senna Madureira, e costumava visitar escritores por exigência profissional. No apartamento da autora de “Horas Nuas”, um Caio gentil lembrou Registro com ironia e fez uma comparação inusitada: “Antonio parece galã de cinema dos anos 50. Algo entre John Gavin e James Garner”.  Nunca mais deixou de me chamar Gavin ou Garner, dependia do entusiasmo.

Na Chácara do Sol de Hilda Hilst, em Campinas, o clima fechou, tempestuoso. Temperamentais, rancorosos, eles haviam cortado relações há alguns anos e Caio tentava recuperar o tempo perdido de uma antiga amizade iniciada em 1968, em plena ditadura militar, quando foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), refugiando-se no sítio da escritora. Não deu certo, a poeta, dura, abriu a boca sem piedade e ele partiu soltando fogo pelas ventas. Situação tensa e mal resolvida, aparentemente sem cura.


CAIO FERNANDO ABREU adorava escrever cartas, assinando muitas vezes como Caio F. - o primo brasileiro da alemã “Christiane F. Drogada e Prostituída”. Ele se dava alcunhas. Em suas cartas, numa espécie de voyeurismo literário, tomamos parte da intimidade do escritor, sabendo de peripécias angustiadas. Demonstrando enorme disposição para o diálogo e a troca, ele escrevia para amigos e também para se apresentar a escritores que não conhecia, expressando admiração. Assim fez amizade com Hilda, Clarice Lispector, Nélida Piñon, entre outros. Morando em diferentes cidades, escrevia loucamente, em um ritmo alucinante, alimentando-se intelectualmente com esse hábito, em um tempo em que não existia e-mail nem facebook e as cartas tardavam dias para chegar. No fundo, entre o fuxico e o desabafo, suas cartas tinham função terapêutica.

caio e antonio nahud, 1989
Nascido em Santiago do Boqueirão (RS), jovem ainda mudou-se para Porto Alegre, onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou para dedicar-se ao trabalho jornalístico. Em 1973, deixando tudo para trás, viajou para a Europa, lavando pratos, fazendo traduções e se virando. Andou pela Espanha, Estocolmo, Amsterdã, Londres e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, com os cabelos pintados de vermelho, usando brincos e se vestindo com batas de veludo cobertas de espelhos. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Dedicou-se ao jornalismo em revistas como “Pop”, “Nova”, “Veja” e “Manchete”. Foi editor de “Leia Livros” e colaborou nos jornais “Correio do Povo”, “Zero Hora”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”.

Vivemos uma estranha, amarga e comovente amizade. Criatura de mistérios e pânicos, telefonava altas horas da noite, deprimido, bêbado, desabafando num monólogo duro. Algumas vezes estive no seu apartamento na Haddock Lobo e, vez ou outra, saímos pelos bares sórdidos do centro da cidade. Era uma amizade fadada ao fracasso, sem confiança ou afeto, talvez somente por minha conexão com Hilda. Terrivelmente inseguro em relação a sua literatura, o escritor duvidava do seu talento e maldizia os deuses por não escrever como Clarice Lispector ou a própria Hilda Hilst.

Eu temia suas palavras perversas, tristeza absoluta, descrença, críticas ácidas. Na época, ainda inédito em livro, fiquei muito feliz ao receber algumas linhas escritas por ele sobre meus contos: “A literatura de Antonio Nahud submerge o leitor num mundo intrépido de terror e tremor, de beleza indescritível e de uma fascinante prospecção filosófica sobre o tempo, a morte, o amor, o horror, o sexo, a busca”.

Hoje consigo dizer, fazia o possível para evitá-lo. Emocionalmente instável, hiper-sensível, frágil e infeliz, nesse período CAIO FERNANDO ABREU sofria demais. Ele tinha explosões repentinas de cólera, seguidas de um silêncio assustador. Via nos otimistas seres imperfeitos e indignos de contar com sua amizade. Abominava a esperança. Numa madrugada, no Sujinho, chorou sem motivo aparente, finalmente lamentando não ser levado a sério como escritor. “Como não, Caio? Muita gente admira Morangos Mofados”, apaziguei. “Porque falo de drogas e sexo. Somente por isso”. Foi o nosso último encontro cúmplice.


Voltei a vê-lo mais duas ou três vezes, rapidamente, na redação da revista Interview e em vernissages nos Jardins. Ele dizia: “Como vai, Gavin?”, e nem ao menos esperava resposta. Portador do vírus HIV, seu aspecto debilitado evidenciava a tragédia, mas nunca conversamos a respeito da doença que o consumia. Era um tempo difícil para os portadores dessa enfermidade. Tinham pouco tempo de vida, em geral às voltas com tratamentos penosos. O coquetel veio depois. Alguns biógrafos dizem que ele descobriu-se portador do vírus da AIDS na França em 1994. Não é verdade. Em 1990, muito abalada, Hilda conversou comigo à respeito.

Debochado e louco por sexo, Caio se rotulava como devasso. À vontade com sua condição homossexual, numa época de intolerância militar, brincava dizendo que escreveria um gigantesco livro chamado “Os Homens que Eu Tive”, versão gay de “Mulheres”, de Bukowski. Ele é um bom contista. Retrata a cultura pop, entre o bom humor e a tragédia, mas sempre permeado por afeto. Econômica e pessoal, apresenta uma visão exacerbada do mundo urbano moderno. Escreveu, entre outros: “Ovo Apunhalado” (1975), “O Triângulo das Águas” (1984, Prêmio Jabuti), “Onde Andará Dulce Veiga?” (1990, filmado em 2008 por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença) e “Ovelhas Negras” (1996).

Sem despedidas, em 1994, CAIO FERNANDO ABREU partiu para a derradeira temporada europeia, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros, escrevendo de lá bonitas crônicas para o jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 1992, Hilda rompeu bruscamente comigo, motivada por um ensaio que escrevi sobre sua vida e obra. De volta a Bahia, nada mais soube sobre o dramático e infeliz amigo. Em 1996, quando morreu, aos 47 anos, eu vivia longe, em Madri. Ele passou os últimos meses de vida na casa dos pais, cuidando de roseiras e canteiros de arruda, alecrim e manjericão.

Uma das suas maiores aflições era a falta de dinheiro. Ganhou prêmios, foi traduzido para vários idiomas, mas não conseguiu resolver os problemas financeiros, vivendo modestamente. Reclamava frequentemente, dizia estar apertado, torcia para um dia ficar rico. Pensou muitas vezes em desistir da literatura. “Não desisto de teimosia meio-burra”, disse-me. Felizmente foi teimoso até o fim, deixando uma obra marcante, farta de sensibilidade.


TODA a OBRA de CAIO FERNANDO ABREU

INVENTÁRIO DO IRREMEDIÁVEL 
(1970)

LIMITE BRANCO 
(1971)

O OVO APUNHALADO
(1975)

PEDRAS DE CALCUTÁ 
(1977)

MORANGOS MOFADOS
(1982)

TRIÂNGULO DAS ÁGUAS
(1983)

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO
(1988)

antonio nahud e caio
AS FRANGAS
(1988)

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO 
(co-autor, Luiz Arthur Nunes, 1988)

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?
(1990)

OVELHAS NEGRAS
(1995)

ESTRANHOS ESTRANGEIROS 
(1996)

PEQUENAS EPIFANIAS 
(1996)

GIRASSÓIS 
(1997)


FRAGMENTOS: 8 HISTÓRIAS E UM CONTO INÉDITO 
(2000)

A VIDA GRITANDO NOS CANTOS 
(2012)

POESIAS NUNCA PUBLICADAS DE CAIO FERNANDO ABREU 
(2012)

CAIO FERNANDO ABREU: DE A A Z 
(2013)


DOIS OU TRÊS ALMOÇOS, UNS SILÊNCIOS.
Fragmentos Disso que Chamamos de “Minha Vida”

CAIO FERNANDO ABREU

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)



antonio nahud com leila miccolis e amigos em registro (sp), 1989

outubro 25, 2016

................................................. A CARA do BRASIL em 30 LIVROS




“Um país se faz com homens e livros”
MONTEIRO LOBATO

Ilustrações:
EMILIANO DI CAVALCANTI
(1897 - 1976)


DOSSIÊ PROSA de FICÇÃO

A literatura existe no tempo, afirmou certa vez o escritor argentino Jorge Luis Borges. Depois de tanto tempo lendo, pergunto-me: quais são os livros fundamentais, essenciais, imperdíveis da literatura brasileira? Que romance, peça ou conto nacionais não poderia deixar de ler na vida? Curioso, selecionei os 30 LIVROS em PROSA/FICÇÃO MAIS IMPORTANTES DO PAÍS.

Lista são problemáticas. Por definição. Pela própria natureza. Por limitarem arbitrariamente o universo em foco. Aí residem a perdição e a eventual graça das listas. A desta postagem não foge à regra. Mas como definir quem entra e quem sai? As preferências, no fundo, são sempre pessoais. Portanto, este ranking não encontrará unanimidade entre os leitores. Alguns eliminariam títulos ou acrescentariam outros. E é bom que seja assim, é bom que haja valores literários distintos.


Discutível como todas as listas de melhores em qualquer atividade humana, tanto na escolha dos melhores filmes de todos os tempos como nas melhores cidades para passar férias, tem uma utilidade indiscutível: abre uma polêmica sobre obras e autores, entre o que tem valor e aquilo que é fútil, o descartável e o duradouro. “Pode ser uma arte em extinção a de ler atentamente, com amor, com a emoção de ver como o texto se desdobra”, disse o famoso crítico literário norte-americano Harold Bloom, concluindo: “Mas todo mundo tem ou deveria ter uma lista de obras literárias que lhe serviriam de companhia numa ilha deserta”.

Com esse mesmo espírito, montei esse cânone brasileiro, consagrando três autores que figuram na lista com duas obras: Autran Dourado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. O resultado é um dossiê versátil, ao mesmo tempo informativo e útil. Para o leitor dos livros de ontem e hoje, do consagrado e do que pode apontar para o polêmico.

A seguir, os 30 LIVROS em PROSA/FICÇÃO essenciais da literatura brasileira, listados em ordem de lançamento. Leia e divirta-se.

1
IRACEMA 
(1865)
de José de Alencar
(Ceará. 1929 – 1977)

Não parece equivocado afirmar que este romance é a mais concreta tradução do projeto estético e ideológico da vertente indianista do romantismo brasileiro. O amor entre Iracema e Martim serve de alegoria do processo de colonização do Brasil pelos colonizadores europeus. O nome da personagem que dá título ao romance é um anagrama de América. Por sua vez, o português remete ao deus grego Marte, cujos atributos são a guerra e a destruição.

A atualidade do livro pode ser atestada pela sua popularidade ainda hoje, mas também pode ser apreendida por meio de traduções ou adaptações para outras linguagens artísticas. A personagem principal foi tema de várias pinturas e esculturas no Brasil. Em 1979, Carlos Coimbra dirigiu “Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel”, com Helena Ramos.

2
A ESCRAVA ISAURA
(1875)
de Bernardo Guimarães
(Minas Gerais. 1825 – 1884)
Livro dos mais conhecidos de nossa literatura. Considerado o melhor romance do escritor mineiro de Ouro Preto. Escrito em plena campanha abolicionista, conta as desventuras de Isaura, escrava branca e educada, de caráter impecável, vítima de um senhor perverso. Grande sucesso editorial, permitiu que seu autor se tornasse um dos mais populares romancistas de sua época. Ele pretende, nesta obra, fazer um libelo antiescravagista e libertário e, talvez, por isso, exceda em idealização romântica, a fim de conquistar a imaginação popular perante as situações intoleráveis do cativeiro.

Não se trata exatamente, no entanto, de uma história de amor, mas dos sofrimentos do amor, que se deixam perceber pelos conflitos da escrava, que não tem o direito de amar, e os do homem casado, que não deve trair a esposa. O tratamento dos personagens é superficial. A linguagem é influenciada pelos padrões românticos, num vocabulário rico e vasto, compreendendo palavras não só do acervo do romantismo como as de caráter regional. Tornou-se um megassucesso, no Brasil e no mundo, depois de ter sido transformada em telenovela em 1976 pela Rede Globo, estrelada por Lucélia Santos.

3
O CORTIÇO
(1890)
de Aluísio de Azevedo
(Maranhão. 1857 – 1913)

Considerado o melhor romance do autor. Escrito pouco antes dele decidir abandonar a literatura e dedicar-se exclusivamente à atividade diplomática. A obra, mais do que contar a história dos personagens, trata da ambição e exploração do homem pelo homem, por meio da rivalidade entre o ganancioso comerciante João Romão e o próspero comendador Miranda. Enquanto um aspira à riqueza, o outro, já rico, ambiciona a fidalguia. Entre os dois está o cortiço.

No fundo, esse espaço coletivo, fundado por João Romão a fim de ganhar dinheiro com os aluguéis das casinhas de baixo custo, é o personagem principal. A obra se insere na linha naturalista, importada da Europa e que fazia sucesso na ocasião. Em busca da objetividade da ciência, o ficcionista deveria tratar seus personagens como se sob a lente do microscópio. Em 1978, foi adaptado ao cinema com interpretações de Armando Bogus e Betty Faria. Direção de Francisco Ramalho Jr.

4
BOM-CRIOULO
(1895)
de Adolfo Caminha
(Ceará. 1867 – 1897)

O autor foi um dos representantes da vertente naturalista do realismo brasileiro, caracterizada pela oposição ao romantismo por intermédio da recusa do sentimentalismo e da abordagem de temas fortes, no bojo da qual vinham as críticas ao moralismo dos costumes. Neste livro, o amor romântico se dá numa dupla de marinheiros, ou seja, dois homens.

Amaro, um escravo fugido, alista-se na Marinha, tornando-se um soldado exemplar. Forte e gentil com todos, recebe o apelido de Bom-Crioulo. Dez anos se passam e ele não mostra a mesma disposição para o trabalho, nem tampouco a mesma gentileza, notadamente quando se entrega à bebida. Seu estado de ânimo se altera também na presença de certo grumete, Aleixo, com quem se envolve amorosamente. Chegam ao Rio de Janeiro e se instalam em uma pensão, levando uma vida matrimonial secreta.

Considerado como o primeiro romance homossexual de toda a literatura ocidental, foi recebido com escândalo pela crítica literária e com silêncio pelo público, devido à ousadia de abordagem de temas tabu, como o sexo inter-racial e a homossexualidade em ambiente militar, com uma frontalidade e erotismo pouco usuais ainda hoje.

5
DOM CASMURRO
(1899)
de Machado de Assis
(Rio de Janeiro. 1839 – 1908)

Não há experimentações formais. Contada em ordem cronológica, parece centrar-se mais no retrato psicológico de seus personagens. De fato, o desenho dos estados internos de consciência, o quadro das motivações ocultas e a exposição dos sentimentos (o amor, o ciúme, a desilusão) animam o andamento do romance. Mas o autor insere um narrador caprichoso, que manipula o enredo para seu proveito.

Bentinho, o Dom Casmurro do título, conta sua trajetória a partir da infância, centrando-se na sua amizade com a vizinha pobre, Capitu, com quem acaba se casando. Com o correr dos anos, convence-se de que a mulher o trai com o amigo Escobar. Ela, porém, refuta a acusação, de sorte que a dúvida paira no ar até hoje, com defensores de ambos os lados: teria ela traído ou não o marido? A modernidade de “Dom Casmurro” reside justamente nessa ambiguidade insolúvel.

Foram feitas duas adaptações cinematográficas do romance. A primeira, “Capitu” (1968), de Paulo Cesar Saraceni, com roteiro de Paulo Emílio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles, e atuação de Isabella, Othon Bastos e Raul Cortez, é fiel ao livro, enquanto a mais recente, “Dom” (2003), de Moacyr Góes, com Marcos Palmeira e Maria Fernanda Cândido, mostra uma abordagem contemporânea sobre o ciúme. Também ganhou importantes adaptações para o teatro e ópera. Para a televisão, em 2008, a Rede Globo realizou uma microssérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho.

6
OS SERTÕES: CAMPANHA DE CANUDOS
(1902)
de Euclides da Cunha
(Rio de Janeiro. 1866 – 1909)

Surgiu de uma reportagem encomendada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Encarregado de cobrir a Guerra de Canudos (1896-1897), o jornalista-escritor encontrou nos confrontos entre o Exército brasileiro e um grupo de fanáticos religiosos liderados por Antonio Conselheiro matéria para descrever a geografia e a população do sertão baiano. Vistos como uma ameaça à jovem República brasileira, os seguidores de Conselheiro foram dizimados.

Dividido em três partes – “A Terra”, “O Homem” e “A Luta” -, o livro é rico em informações científicas, imagens bem construídas e narrativa eficaz. Os leitores de Euclides costumam não esquecer de alguns trechos, como a constatação definitiva: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo”.

7
TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
(1911)
de Lima Barreto
(Rio de Janeiro. 1881 - 1922)

É a obra mais famosa do autor carioca, publicada em forma de folhetim (1911) e depois em livro (1915). Consolidou-se como um clássico porque traduziu os impasses do Brasil de seu tempo. O major Policarpo Quaresma vive de idealismos nacionalistas em trajetória dividida em três partes: como funcionário público, proprietário rural e soldado voluntário na Revolta da Armada, em 1893, quando se decepciona — em capítulo antológico — com o seu idealizado marechal Floriano Peixoto. Ao criticá-lo, é preso.

Quaresma queria basicamente três reformas: da cultura, da agricultura e da política, mas não consegue nenhuma. Seu sonho mais singular foi o de oficializar o tupi-guarani como idioma brasileiro. Certas desventuras e desencantos do protagonista poderiam até ser vistas como as do próprio autor, mas seu brilhantismo neste romance específico passa ao largo da autobiografia. Intitulado “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”, o filme de 1998 foi dirigido por Paulo Thiago.

8
MACUNAÍMA, O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER
(1926)
de Mário de Andrade
(São Paulo. 1893 – 1945)

Escrito como um passatempo de férias. Mario isolou-se com um tio doente e a companhia de alguns livros, entre eles o trabalho etnográfico do antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que havia pesquisado as lendas e os mitos do Norte brasileiro. Tomado de entusiasmo, redigiu em seis dias a obra.

O protagonista sai da selva amazônica, onde vivia preguiçosamente de comida e sexo, e vai para São Paulo a fim de recuperar a muiraquitã — um talismã que dele foi furtado.  São muitas as metamorfoses que ele passa. O “herói sem nenhum caráter” transforma-se (em príncipe, estrela, francesa etc.) e transforma (São Paulo em um bicho-preguiça de pedra) de acordo com a desfaçatez das conveniências.

Segundo o poeta Haroldo de Campos, o autor construiu uma “fantasia estrutural”, que rompe com o tempo e espaço dos romances tradicionais. A solenidade do tom épico-lírico, a leveza da crônica cômica e sem-cerimônia e os atrevimentos da paródia devem ser vistos, em conjunto, como uma das mais ousadas e eficientes experiências literárias. Adaptado com sucesso para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade em 1969. Também foi feita uma premiada peça de teatro, dirigida por Antunes Filho, encenada pela primeira vez na década de 1970 e que chegou a ser apresentada em vários países.


9
SÃO BERNARDO
(1934)
de Graciliano Ramos
(Alagoas. 1892 – 1953)

Narrada em primeira pessoa, a vida de Paulo Honório é rememorada. Da infância a adulto, proprietário, casando-se com a professora Madalena, com quem tem um filho. E é aí que seu verdadeiro drama começa ao sentir um ciúme doentio da mulher, desconfiando de todos. Achava que a criança nada tinha de parecido com ele. Suspeita até do padre.

Sua loucura acabou, por fim, levando Madalena ao suicídio. Daí em diante, os negócios da fazenda começaram a andar mal. Esse exercício de recapitulação biográfica detalha essencialmente o desejo de posse do narrador que o acompanhou a vida toda. O crítico Antonio Candido identificou em Paulo Honório “uma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade”. Dessa forma, o protagonista age sempre de forma firme, objetiva e implacável para obter o que quer.

Nessa tragédia rural, o estudo psicológico tornou-se um dos mais exemplares da literatura brasileira. Em 1972, Leon Hirszman dirigiu uma das melhores adaptações literárias do cinema brasileiro, vencendo vários prêmios. Além disso, teve também uma versão para TV roteirizada por Lauro César Muniz, com Paulo José na direção e José Wilker e Regina Duarte no elenco. Levada ao ar pela Rede Globo em 1984.

10
OS RATOS
(1935)
de Dyonélio Machado
(Rio Grande do Sul. 1895 - 1985)

Rendeu ao escritor gaúcho o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Em uma década marcada por grandes romances dedicados aos dramas das camadas sociais menos favorecidas, ele transformou Naziazeno Barbosa, atormentado protagonista, em uma das figuras mais marcantes da galeria de personagens desvalidos que povoam a literatura brasileira.

Romance breve, composto de 28 capítulos curtos que se passam num único dia. Sem cair no naturalismo fácil que explora a degradação e a violência das cidades, consegue um perfeito equilíbrio entre investigação psicológica e descrição social. O autor mostra sensibilidade para retratar um quadro humano próximo ao desespero: o obsessivo Naziazeno, funcionário público que precisa de 53 mil réis para pagar a conta do leite e sai pela Porto Alegre do começo do século 20 para cavar o dinheiro.

11
VIDAS SECAS 
(1938)
de Graciliano Ramos

Uma família de retirantes se lança contra o sertão nordestino em busca de uma vida melhor na cidade grande. A história poderia se tornar um drama de apelo emocional imediato, mas recebeu do autor um tratamento literário seco. Seus personagens, Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos, a cachorra Baleia e um papagaio, são caracterizados como criaturas em constante embate com o meio hostil e degradante.

Dividido em 13 capítulos independentes, que não apresentam ligação entre si, apenas temática, chegou a ser chamado por Rubem Braga de “romance desmontável”. Assim, há capítulos intitulados como “Mudança”, “Cadeia”, “Festa”, “O Soldado Amarelo”, “O Mundo Coberto de Penas”. Graciliano começou a conceber o livro depois de escrever “Baleia”, inicialmente um conto publicado em jornal, que foi bem recebido. O filme de 1963, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, é um elogiado clássico do nosso cinema.

12
O SÍTIO DO PICAPAU AMARELO 
(1939)
de Monteiro Lobato
(São Paulo. 1882 – 1948)

Série de 23 volumes de fantasia, escrita entre 1920 e 1947. A obra tem atravessado gerações e representa a literatura infantil do Brasil. O conceito foi introduzido em “A Menina do Narizinho Arrebitado” (1920), sendo mais tarde republicada como o primeiro capítulo de “Reinações de Narizinho” (1931). Além de uma imaginação poderosa, o autor demonstra um sentimento de nacionalismo e de apego ao rural.

Há também uma clara orientação didática na composição desses textos. Por meio de fabulações, educam e incentivam nas crianças o gosto pela leitura. A obra tem sido adaptado diversas vezes desde os anos 1950, para filmes e séries de televisão, sendo as produções da Rede Globo, de 1977-1986 e 2001-2007, as mais populares.

13
FOGO MORTO
(1943)
de José Lins do Rego
(Paraíba. 1901 - 1957)

Última obra do mais expressivo dos ciclos do autor paraibano: o da cana-de-açúcar. Apesar de marcar o fim da série, com a decadência dos senhores de engenho, também assinala seu auge, seu momento de superação, constituindo uma obra-prima da literatura regionalista, de caráter neo-realista.

“Descendente de senhores de engenho, o romancista soube fundir numa linguagem de forte e poética oralidade as recordações da infância e da adolescência com o registro intenso da vida nordestina colhida por dentro, através dos processos mentais de homens e mulheres que representam a gama étnica e social da região”, descreve o crítico literário Alfredo Bosi, em “História Concisa da Literatura Brasileira”.

Narrado em terceira pessoa, é dividido em três partes. Cada uma conta com seu próprio protagonista, como se fossem três histórias distintas e sucessivas. No entanto, os personagens principais (mestre José Amaro, Coronel Lula de Holanda e o Capitão Vitorino) se inter-relacionam durante toda a narrativa, quase inteiramente ambientada no Engenho de Santa Fé. O filme de 1976, dirigido por Marcos Farias, tem Othon Bastos como protagonista.

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TERRAS DO SEM-FIM 
(1943)
de Jorge Amado
(Bahia. 1912 – 2001)
De proporções épicas, narra a formação da zona cacaueira da Bahia, que abrange a região de Ilhéus e Itabuna, com seus conflitos e paixões. Centrada nas disputas entre proprietários rurais pelas terras do sul da Bahia, a obra faz parte do chamado “ciclo do cacau”. Ao contrário de “Gabriela, Cravo e Canela”, em que a crítica social aparece camuflada na crônica de costumes, o escritor grapiúna denuncia claramente o patriarcalismo, o clientelismo e a violência do sertão, baseado na lei do mais forte e na demonstração do poder, evidenciando com isso, sem tom panfletário, a injustiça social e a exploração do trabalhador, vítima da ambição dos coronéis sertanejos. Em 1948, a Atlântida Cinematográfica produziu o filme “Terra Violenta”, inspirado no romance. Já em 1981, foi adaptado para a televisão pela Rede Globo, que produziu uma simpática telenovela. 

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SAGARANA 
(1946)
de Guimarães Rosa
(Minas Gerais. 1908 – 1967)
Estreia literária do mineiro Rosa, este livro de contos é visto por alguns como um rascunho de “Grande Sertão: Veredas”. Na verdade, é, em si, uma obra-prima. O título consiste num neologismo criado a partir da palavra portuguesa “saga” (história fantástica) e do pospositivo tupi “rana” (semelhante, parecido); ou seja, sagarana é, literalmente, “algo parecido com uma saga”. Compõe-se de nove contos, cada qual dotado de suas próprias peculiaridades.

Como se vê, a maestria vocabular do autor, conhecedor e amante de diversos idiomas, presente em toda a sua ficção, transparece desde esta primeira obra. Ela está repleta de neologismos, arcaísmos, regionalismos, metáforas, frases quebradas, rica imaginação fabular e uma musicalidade impressionante, expressa por meio de rimas, aliterações, onomatopéias e ritmo cambiante. Também se revela uma fusão perfeita do erudito com o popular. Dois contos, “A Hora e Vez de Augusto Matraga” e “O Duelo”, foram adaptados para o cinema em 1965 e 1973.

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O TEMPO E O VENTO 
(1949-1961)
de Érico Veríssimo
(Rio Grande do Sul. 1905 - 1975)

Série literária dividida em “O Continente” (1949), “O Retrato” (1951) e “O Arquipélago” (1961). Conta uma parte da história do Brasil vista a partir do Sul - da ocupação do Continente de São Pedro (1745) até 1945 (fim do Estado Novo), através da saga das famílias Terra e Cambará.

Os personagens masculinos, principalmente em “O Continente”, revelam a imagem que geralmente se faz do homem gaúcho, valente e machista. Mas realmente fortes, principalmente no sofrimento, são as mulheres de Érico, tipos antológicos como Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. Estas três constituem as matriarcas da família e suas qualidades fortes se mantêm ao longo das gerações. Ganhou a primeira versão para a TV em 1967, com Carlos Zara no papel de Rodrigo Cambará e Geórgia Gomide como Ana Terra. Em 1985, a Globo fez uma minissérie. Por fim, em 2013, um filme dirigido por Jayme Monjardim.


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A VIDA COMO ELA É 
(1951-1961)
de Nelson Rodrigues
(Pernambuco. 1912 – 1980)

De 1951 a 1961, Nelson publicou no jornal “A Última Hora”, de Samuel Wainer, a coluna “A Vida Como Ela É...”. O nome do espaço deveria ser “Atire a Primeira Pedra”, com uma ficção diária inspirada em uma notícia do caderno policial. O escritor então sugeriu a mudança de título e, aos poucos, passou a criar seus próprios argumentos, que surgiam de casos que lhe contavam, da observação dos subúrbios cariocas e de outros fatos de que ouvira falar quando criança.

O universo teatral rodriguiano se faz presente nestes contos. O tema preponderante nas quase 2 mil histórias é o adultério, retratado na sociedade carioca dos anos 1950. Os personagens são parte da pequena burguesia, que em geral moram na Zona Norte, trabalham no Centro e, vez por outra, frequentam a Zona Sul para corromper-se. Todos vivem em um estado constante de tensão sexual, como se esse fosse o eixo condutor de suas existências.  Fez tanto sucesso que foi transformada em radionovela, fotonovela, cinema e programa de televisão.

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MENINA MORTA 
(1954)
de Cornélio Penna
(Rio de Janeiro. 1896 – 1958)

Caracterizado pelos capítulos curtos e criação de uma atmosfera de estranheza, com diversos elementos de mistério, divide-se em duas partes: na primeira, a memória da menina que morreu precocemente; na segunda, a sua falta é preenchida por sua irmã, agora única herdeira da casa. A narrativa psicológica se passa em uma grande fazenda de café no Vale do Paraíba, São Paulo, onde se encontram cerca de trezentos escravos e diversos agregados.

A representação da criança seria o motivo da reconciliação humana em meio aquela paisagem e da superação da diferença entre a pobreza e a riqueza. Com sua morte, este símbolo pune a todos, e sua missão de inspirar perdão e bondade se perde junto com ela. Mas a nostalgia da menina perdura, sendo lembrada em seu retrato a óleo que fica pendurado na parede, numa busca frustrada pelo sentido da vida.

19
GRANDE SERTÃO: VEREDAS 
(1956)
de Guimarães Rosa
Repleto de neologismos, arcaísmos recuperados, linguagem coloquial e regionalismo retrabalhado. Trata-se de uma verdadeira revolução na arte de contar “estória” (como Rosa gostava de grafar), que lhe rendeu inúmeros prêmios e lugar como um dos cem livros mais importantes de todos os tempos, de acordo com o prestigiado Círculo do Livro da Noruega.

Bloco de texto inteiriço, sem qualquer divisão de capítulos, narra em primeira pessoa as aventuras de Riobaldo pelo sertão mineiro. Ele conta sua vida a um “senhor”, cuja identidade permanece oculta. E anseia por negar a existência do demônio, com quem fez um pacto para derrotar o jagunço do bando rival, Hermógenes.

Narrado num português como que novo, pois reinventado, atinge um clímax na relação ambígua de Riobaldo com Diadorim (“Diadorim é minha neblina”, diz o enamorado). Travestido de jagunço, o companheiro é, na verdade, uma mulher valente e impiedosa. Nesse universo quase mítico, a dimensão única, poética e alquímica da linguagem, que desintegra as fronteiras entre narrativa e lírica, é um convite irrecusável à viagem pelas palavras.

Levado cinema em 1965, dirigido pelos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira. Em 1985, a Globo fez uma minissérie, direção de  Walter Avancini, com Tony Ramos, Bruna Lombardi, Tarcísio Meira e José Dumont. Em 2013 foi a vez do documentário “Sujeito Oculto: na Rota do Grande Sertão”, de Silvio Tendler.

20
CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA 
(1959)
de Lúcio Cardoso
(Minas Gerais. 1912 – 1968)

Obra máxima de escritor mineiro, um dos mais densos e originais ficcionistas da prosa brasileira. De extrema complexidade, composto de um entrelaçamento de perspectivas e de recursos narrativos como trechos de diários, anotações, confissões, flash-backs, além de modos de expressão que se aproximam da mais pura poesia.

O enredo, porém, é simples. Trata da decadência dos Menezes, uma família de fazendeiros das Minas Gerais. Movidos por fortes sentimentos de inveja, incesto, desamor e ambição, eles devoram-se uns aos outros até a mais completa desintegração financeira e moral. O que interessa ao autor não é contar uma história nos moldes tradicionais, mas mergulhar na febre dos sentimentos conflituosos dos atores do drama, que faz par com a atmosfera de morbidez e de trevas que ronda a propriedade rural e o declínio da família. Em 1971, Paulo César Saraceni dirigiu uma elogiada adaptação. No elenco, Norma Bengell.

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O PAGADOR DE PROMESSAS 
(1960)
de Dias Gomes
(Bahia. 1922 – 1999)

Sua consagração como um dos principais dramaturgos do teatro brasileiro moderno se deu com esse texto, cujo potencial o crítico Sábato Magaldi reconheceu antes mesmo da estreia nos palcos. Conta o caso trágico de Zé do Burro, que viaja de sua vila no interior da Bahia até Salvador carregando uma cruz.

O mundo da cidade, da capital, choca-se com as crenças e a visão mítica do protagonista. E a miscigenação religiosa neste caso expõe o quanto seus limites de tolerância são frágeis. A trama realista sintetiza as tensões sociais e os desníveis culturais de um país. Em 1960, causou furor ao ser montada no palco do Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, pelo diretor Flávio Rangel. O filme de 1962, de Anselmo Duarte, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Na Globo foi teleteatro, em 1974, e minissérie em 1988, direção de Tizuka Yamasaki e José Mayer como Zé do Burro.

22
A BARCA DOS HOMENS
(1961)
de Autran Dourado
(Minas Gerais. 1926 – 2012)

Definido pelo autor como “uma história de caça e pesca”. A linha condutora é a perseguição a um homem que teria roubado uma arma. Fortunato, o fugitivo em questão, é um débil mental que vai mexer com a realidade e os sonhos, o consciente e o inconsciente dos habitantes e veranistas de uma ilha do litoral brasileiro, fazendo aflorar sentimentos e desejos ocultos.

É uma metáfora do ciclo da vida através de uma prosa refinada. A escolha de uma ilha como cenário para este primeiro grande romance do autor, reflete o cerceamento de todos os personagens, e não apenas de Fortunato, em uma situação limite, detonadora de conflitos. A ação exibe ao leitor diversos pontos de vista de um mesmo acontecimento.


23
CORPO VIVO 
(1962)
de Adonias Filho
(Bahia. 1915 – 1990)

Ambientado na região cacaueira do Sul da Bahia, onde os conflitos causados pela terra para o plantio de cacau eram comuns. Tem como protagonista Cajango, uma espécie de homem-fera treinado para matar e fazer justiça contra os jagunços e envolvidos com a morte da sua família. O sobrevivente do massacre foi criado nas montanhas com um tio índio, revoltado, que o prepara para a vingança final.

As brigas e ganância pelas terras marcam a vida da família dos Januários, inimiga dos vizinhos Bilás. Mas a trama é voltada para as ações de Cajango, que ao tornar-se adulto cria um bando de justiceiros, aterrorizando as pessoas por onde passa, revelando-se um monstro. Suas vítimas não morrem rápido, há crueldade em suas ações. Ele se prepara para vingar-se da morte de seus pais.


24
ÓPERA DOS MORTOS 
(1967)
de Autran Dourado

Obra-prima do autor mineiro renovador do romance nacional, trata dos embates entre morte e vida, permanência e mudança. Normalmente associado à linha do regionalismo introspectivo. Incluído pela Unesco na “Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal”, conta a saga de Rosalina Honório Cota. Última remanescente de sua família, ela vive praticamente sozinha na companhia de Quiquina, empregada muda. As duas habitam um sobrado velho e decadente, construído pelos antepassados de Rosalina.

Para o professor Massaud Moisés, “a tensão romanesca é sufocante, as personagens, loucas ou tangidas por forças indiscerníveis, exterminadoras, diabólicas, parecem arquétipos vivos; o tom, porém, é dum realismo simbólico, em que se defrontam o Mito e a História”. A linguagem, de recursos barrocos, contribui para criar uma narrativa labiríntica. A atmosfera negativa vem do embate entre o antigo e o novo, o obsoleto e o moderno, os mortos e os vivos, a permanência e a mudança dos valores.

25
ROMANCE D’A PEDRA DO REINO
E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI-E-VOLTA
(1971)
de Ariano Suassuna
(Paraíba. 1927 – 2014)

Obra extensa, complexa, híbrida, que não cabe em classificações limitadoras. Para Suassuna, é um romance picaresco. Ao longo da narrativa há poesia, romance de cavalaria, memorial e mais outras formas que implicam “lembrança, tradição e vivência na integração do popular ao erudito, com toque pessoal de originalidade e improvisação”, segundo definiu a escritora Raquel de Queiroz.

Epopeia áspera, sertaneja e mestiça. O escritor tinha se lançado a proposta de criar uma trilogia, que não vingou - a segunda parte, “História d’O Rei Degolado”, foi publicada em 1977. Por outro lado, Suassuna conseguiu que se criasse uma festa popular inspirada no livro e pelo Movimento Armorial. Todo ano, no último fim de semana de maio, uma cavalhada em São José de Belmonte celebra o escritor e sua obra-prima.  Em 2007, a Globo fez bonita microssérie, dirigida por Luiz Fernando Carvalho.

26
SARGENTO GETÚLIO 
(1971)
de João Ubaldo Ribeiro
(Bahia. 1941 – 2014)

Considerado a obra-prima do autor e já traduzido em várias línguas, narra a história de Getúlio, um sargento da Polícia Militar de um destacamento sediado em Aracaju, Sergipe. De família pobre, ele trabalha como feirante e engraxate para sobreviver, tornando-se depois soldado. Tendo assassinado a mulher, que o traíra com outro, busca a proteção de um chefe político, ao qual passa a servir como capanga.

Mesmo pretendendo aposentar-se, aceita nova missão, a de prender, no interior, um adversário político do chefe. Cumprida a tarefa, começa a viagem de retorno a Aracaju, momento em que se inicia a narração em primeira pessoa. Sobre a obra, João Ubaldo afirmou: “é um romance engajado — persegui esta espécie de autobiografia fantasmagórica, mas com maior distância. É, de certa forma, um retorno à minha infância, ao universo de Sergipe, com sua brutalidade, seu primitivismo ao qual dei uma dimensão mais ampla — ética e política.” Em 1983, Hermanno Penna dirigiu um filme bastante fiel ao livro. No papel central, Lima Duarte.

27
ÁGUA VIVA
(1973)
de Clarice Lispector
(Ucrânia. 1920 - 1977)
Longo texto ficcional em forma de monólogo. Neste livro, Clarice leva a extremos a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrido, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. Foi definido como “um denso e fluente poema em prosa”. Nele é aclamada, amaldiçoada, reprimida e expandida a vida.

Não existe enredo, prevalecendo a repetição dos mesmos temas e o desfile de imagens multifacetadas, similares ao jogo de variações existente na música. A circularidade está presente desde a primeira até a última frase do livro: não há começo, meio ou fim. Trata-se de um texto para ser muito mais vivido do que lido, no qual a sensibilidade aflora constantemente, em um fluir de experiências vivenciadas de forma intensa.

Clarice rompe com o sistema, virando-o pelo avesso, revelando o indizível, o “proibido”. Estabelece uma forte relação entre a pintura e a literatura: a personagem é uma pintora que escreve a alguém e fala constantemente de pintura, fazendo com que a respiração de um traço ou de uma pincelada estejam concretamente na obra, marcas físicas de um trabalho. A música vibra também por trás de seu texto. Há um cansaço em relação à palavra, essa palavra que nunca a satisfaz.

28
O GRITO DA PERDIZ 
(1982)
de Hélio Pólvora
(Bahia. 1928 – 2007)

Com um gênero discursivo simples, presente na fala das personagens, e com uma fartura de proposições sem resposta, o prosador cria um clima de suspense e desafia a imaginação do leitor. Divide-se em quatro soberbos contos. No último deles, com o mesmo título do livro, narra a história de dois homens que vão, com o auxílio de um cão, à caça de perdizes. Estando lá, uma série de acontecimentos estranhos, tais como disparos de espingardas eventuais e inocentes, diálogos ambíguos e ataque de animais peçonhentos servem de elo para outros caminhos dentro da própria trama, onde a mulher de um deles passa a ser a figura central. No decorrer da leitura, fica implícito que o tema central tratado é o ciúme. Magistral.

29
MORANGOS MOFADOS 
(1982)
de Caio Fernando Abreu
(Rio Grande do Sul. 1948 – 1996)

Continuação de “Pedras de Calcutá” (1977). Um dos maiores sucessos editoriais da década. Nesta coletânea de contos, focalizam-se personagens socialmente excluídos ou marginalizados por seu comportamento. Divide-se em duas partes. A primeira, “O Mofo”, é constituída de nove histórias que contemplam a ditadura militar e a repressão à liberdade e ao direito de opinião, escarafunchando sentimentos rejeitados pela sociedade e reprimidos nos indivíduos.

A segunda parte, “Morangos”, mostra que há solução para os traumas impostos pelas circunstâncias sociais e fornece, em oito contos, um fio de esperança aos personagens, que encontram um sentido para viver. Caio Fernando revela, num período de censura, o que faziam e o que sentiam os loucos, os homossexuais e a própria juventude brasileira diante do preconceito da sociedade e da repressão a seus ideais.

30
MEMORIAL DE MARIA MOURA 
(1992)
de Rachel de Queiróz
(Ceará. 1910 - 2003)

Imenso painel sem retoque de relações sociais, culturais, morais e afetivas entre personagens sábia e comovidamente delineadas. Fez sucesso na sua adaptação para a televisão como minissérie em 1994, com Glória Pires. Situa-se em meados de 1850, no sertão. Misturam-se na narrativa as forças e fraquezas, as virtudes e defeitos da condição humana, desde o amor ao ódio, desde o crime ao remorso. Nele são retomados alguns dos temas básicos da escritora: o Nordeste problemático, a preocupação social, a força como criadora de figuras femininas singulares.

Escrito em primeira pessoa. Assim, a estória é contada por quem a viveu, e o leitor se delicia com a mudança constante de ponto de vista: ora fala a personagem Marialva, ora o Beato Romano, e, no mais das vezes, a própria Moura conversa com o leitor. É quase possível vê-la, sentada no batente da fazenda, dentro de suas calças de homem, lembrando os “causos” de sua vida. 

FONTE

Revistas “Bravo!” e “Entre Livros”.