maio 07, 2017

.......... ENTREVISTANDO ISABEL ALLENDE – LITERATURA e PAIXÃO



Vivo entre difusos matizes, veludos mistérios, incertezas; o tom adequado para contar minha vida se ajusta melhor ao de um retrato em sépia...

Ilustrações:
EDWIN HOJAS
(Chile. 1957)

Esta conversa da escritora com o jornalista Antonio Nahud ocorreu em Barcelona, Espanha, em 2000. Publicada nos jornais “Diário de Notícias” e “A Tarde”, e no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2002).


A escritora sul-americana passou três dias em Barcelona, acertando detalhes do lançamento mundial de “Retrato em Sépia” com a agente literária Carmen Balcells, a mesma que cuida da carreira de Gabriel García Márquez, Jorge Amado e tantos outros. ISABEL ALLENDE escreveu o seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos”, como uma carta para o avô que estava morrendo. Apesar de best-seller internacional, precisou escrever mais um livro de sucesso antes de se sentir suficientemente segura para deixar o emprego. Tem agora mais de 10 títulos publicados, incluindo “A Filha da Fortuna”, lançado no ano passado e na lista dos livros mais vendidos no mundo. Na Espanha está na l2ª edição.

Autora de sucessos editoriais como “Eva Luna”, “Afrodite”, entre outros, traz no seu novo livro, um romance histórico, movimentada ação nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do século XX. Uma saga familiar onde encontraremos alguns dos personagens de seus livros anteriores – “A Filha da Fortuna” e “A Casa dos Espíritos”. O tema principal do romance é a memória, sempre enovelada com os segredos de família. Juntando recordações ilusórias e os fios evasivos de personagens que passaram pelo seu destino, a protagonista Aurora del Valle procura entender o seu passado. 

Acompanhada do marido, o advogado norte-americano Willie Gordon, uma sorridente ISABEL ALLENDE recebeu inúmeros jornalistas. Simpática, cheia de energia, ela explicou que veio do sol, recebendo na Itália o título “Mulher do Ano”. Nasceu em Lima, no Peru, no dia 2 de agosto de 1942. Apesar do local de nascimento, é considerada uma autora chilena, pois viveu neste país desde muito cedo, quando sua família se mudou. Fez programas de tevê, escreveu crônicas e peças teatrais, antes de se tornar uma escritora traduzida em 25 idiomas. Ela mora há doze anos em San Francisco, Califórnia, e em seu novo livro faz uma viagem de regresso ao Chile.

Aos 58 anos, a escritora falou sobre “Retrato em Sépia”, o passado, o Chile, a escrita e os afetos.

A protagonista do seu romance anterior, Eliza Sommers, deixou Valparaíso, no Chile, para recomeçar a vida na Califórnia. A personagem central de “Retrato em Sépia” faz o caminho inverso. Foi intencional?

A personagem Aurora del Valle é neta da Eliza Sommers e do Tao Chi´ de “A Filha da Fortuna”. Como se trata de uma trilogia, incluindo “A Casa dos Espíritos”, personagens reaparecem e outros surgem pela primeira vez, vão e voltam. Também podem ser lidos como obras independentes.


“Paula” é um livro de memórias sobre a morte da sua filha. “A Casa dos Espíritos” era uma carta ao seu avô moribundo. O trabalho ajuda-a a superar estas tragédias?

A escrita é curativa. “A Casa dos Espíritos” foi uma tentativa de recuperar o mundo que eu perdera no exílio - a minha família, o meu passado, o meu avô - e acho que o consegui. Estará para sempre nesse livro. Eu escrevo e sigo vivendo. Sigo cheia de energia e paixão, feminista e enamorada de Antonio Banderas.

O caráter forte de Aurora tem também inspiração biográfica?

Não é o ponto central. Ela é uma jovem mulher de olho no passado. Procura descobrir o que se passou nos seus primeiros cinco anos de vida, motivo de frequentes pesadelos. Terminará descobrindo. No caminho, enfrenta um péssimo casamento e renuncia ser a “boa menina” que a avó gostaria que fosse.


Por que ela se torna fotógrafa?

A partir de 1870, com a substituição da placa pela película fotográfica, os fotógrafos começaram a captar cenas em movimento, gerando duas tendências, quem entendia a fotografia como arte parecida à pintura e aqueles que optaram por sua vertente documental. Nesta evolução, muitas mulheres tiveram papel importante, sobretudo nos Estados Unidos. Era um campo de criação novo, e diferente da pintura não estava restrito aos homens. Inseri Aurora del Valle como uma dessas pioneiras, uma profissional sensível, atenta à realidade.

“Retrato em Sépia” cita o golpe militar de Augusto Pinochet e uma de suas vítimas mais emblemática, seu parente, o ex-presidente Salvador Allende.

Foram anos importantes para a história do Chile. Anos da guerra do Pacífico e da revolução de 1879. Um período histórico que guarda semelhanças com a ditadura de Pinochet.


Precisou de muitos anos de pesquisa para situar o romance neste contexto histórico?

Aproveitei a documentação feita para “A Filha da Fortuna”, e tive ajuda no Chile do meu padrasto. Ele me proporcionou dados importantes da situação do país no final do século XIX.

Além do nascimento da fotografia no Chile, o que mais conta no seu relato?

Mostro o que se passa em um país dominado por um poder corrupto e impune. Deixo claro que basta que se deem as condições para que brote a selvageria do povo.

“o caderno de maya”

TODA a OBRA de ISABEL ALLENDE

ROMANCES
A CASA DOS ESPÍRITOS (1982)

A LAGOA AZUL (1983)

DE AMOR E DE SOMBRA (1984)

EVA LUNA (1987)

O PLANO INFINITO (1991)

AFRODITE (1998)

FILHA DA FORTUNA (1999)

RETRATO A SÉPIA (2000)

A CIDADE DAS FERAS (2002)

O REINO DO DRAGÃO DE OURO (2003)

O BOSQUE DOS PIGMEUS (2004)

ZORRO, COMEÇA A LENDA (2005)

INÊS DA MINHA ALMA (2006)

A SOMA DOS DIAS (2007)

A ILHA SOB O MAR (2009)

O CADERNO DE MAYA (2011)

O JOGO DE RIPPER (2014)

O AMANTE JAPONÊS (2015)

MEMÓRIAS

CARTAS A PAULA (1995)

MEU PAÍS INVENTADO (2003)

CONTOS
LA PORDA DE PORCELANA (1984)

CONTOS DE EVA LUNA (1989)

TEATRO
EL EMBAJADOR (1971)

LA BALADA DEL MEDIO PELO (1973)

LOS SIETE ESPEJOS (1974)

LOS TOMATES DEL FÁBIO CAGÓN (2004)


FILMES ADAPTADOS de seus LIVROS

A CASA DOS ESPÍRITOS
(The House of the Spirits, 1993)
de Bille August
com Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close,
Wynona Ryder, Antonio Banderas e Maria Conchita Alonso

DE AMOR E DE SOMBRA
(Of Love and Shadows, 1994)
de Betty Kaplan
com Antonio Banderas, Jennifer Connelly e Stefania Sandrelli

GALERIA de FOTOS


abril 23, 2017

...... GÜNTER GRASS - a CONSCIÊNCIA CRÍTICA da NAÇÃO ALEMÃ



Ilustrações:

(Gera, Alemanha. 1891 - 1969)

Antonio Nahud entrevistou Günter Grass na Fnac de Madri, em 2000. A entrevista saiu no jornal “A Tarde” (BA) e no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2002).


Quando a maioria tenta esquecer-se do passado, um dos maiores intelectuais da Alemanha remexe o nazismo e denuncia o tema em entrevistas e em livros. Mais do que um gigante literário, GÜNTER GRASS é um tutor moral do pós-guerra. Autor de “A Ratazana” (1986) e prêmio Nobel de Literatura 1999, ele traduz a desordem humana oculta na história política da sua nação. Sua obra tem características dos murais históricos e sociais. Romancista, poeta, escultor e desenhista, é um dos autores definitivos da língua alemã e o principal porta-voz de sua geração.

Nascido em 1927, em Danzig, começou sua carreira literária em Paris, por volta de 1956, e teve o reconhecimento internacional com o barroco “O Tambor”, romance finalizado em 1959, quando ele contava 32 anos, e escrito em um porão da capital francesa. Com o livro, ele ganhou o papel informal de “consciência crítica da Alemanha”. Traduzido para 24 idiomas, relata o estado de quase apoplexia que teria levado homens e mulheres a aceitarem o nazismo como uma extensão de seu caráter. Em meio ao rastro de destruição, o protagonista - um menino interno de um hospício - se recusa a crescer e a entrar na sociedade dos adultos. Volker Schlondorff passou o argumento ao cinema, num filme premiado que divulgou mundo afora o escritor.

Nos anos 1960 e 1970, os romances de GÜNTER GRASS enfocaram a desilusão a pairar sobre a construção de uma nova sociedade alemã. Enquanto escrevia, produzia discursos para Willy Brandt, o primeiro chanceler social-democrata do país, e encontrava tempo para denunciar, por exemplo, a indústria de armamentos alemã ou a “cumplicidade moral” dos católicos e luteranos com o nazismo. Ele se diz “não um pessimista, mas um cético”. Sua missão parece ser a de alertar, por meio da escrita e também da persona pública, a má consciência dos que se esquivam e se desculpam por seus raramente assumidos pecados de guerra. O escritor usa a figura engajada para desmantelar seus compatriotas.


Para ele, o papel do escritor é rasgar feridas que não estejam curadas e é o que faz. Ano passado foi especialmente importante para a sua carreira inovadora. Ganhou o Nobel e o prêmio espanhol Príncipe das Astúrias de Letras. Foi o reconhecimento a um autor engajado politicamente, preocupado com temas como aborto, xenofobia e armas nucleares. Entre seus romances conhecidos estão “O Linguado”, “A Ratazana”, “Maus Presságios” e “Anos de Cão”. O mais recente, “Meu Século”, foi lançado recentemente no Brasil. Homem simples e agradável, 71 anos, incansável fumador de cachimbo, de passagem por Madri concedeu a entrevista publicada adiante.

O senhor provoca ao mesmo tempo amor e ódio entre sua gente. Talvez seja mais querido fora do seu país.

Não creio que tenha a ver especificamente com minha pessoa. Sucede em outros países com outros escritores. Por exemplo, Juan Goytisolo, um autor espanhol a quem aprecio muito. Ele é bastante incompreendido na Espanha e respeitado na Alemanha. Isso sempre acontecerá no universo literário. Não lamento. Estou bem, mesmo com os ataques sofridos no meu próprio país.


Tudo começou há 41 anos com a publicação de “O Tambor”, uma obra que abalou o establishment literário alemão. Esse romance é um clássico do século XX. Influenciou diversos escritores. Entre eles, Gabriel García Márquez.

Fico alegre. Comovente saber que autores mais jovens que eu, como Salman Rushdie ou John Irving, leram na juventude a tradução inglesa de “O Tambor” e que o livro os animou em sua carreira literária. Não como influência, mas como incentivo para seguir escrevendo. Naturalmente que me sinto feliz com o resultado de “O Tambor”.

Menos consensual foi a avaliação de muitos em relação a “Uma Longa História”, publicado em 1995, e o recente “Meu Século”.

A imprensa alemã os considerou ilegíveis e monstruosos. Não é fácil ser sincero em relação a unificação alemã e outros temas delicados, e agradar a todos.


Conhecido como um escritor profundamente politizado, defende, inclusive, minorias. Sua literatura chama a atenção para um mundo humanista, quase desaparecido. Vem daí a polêmica?

Sempre estive ao lado das minorias. Provavelmente tem a ver o fato de ser de origem kachuba por parte de minha mãe, e os kachubos constituem, na Polônia, uma minoria eslava. Não entendo como a gente cruza os braços diante de massacres nos quais são vítimas centenas de pessoas. Muitas vezes me sinto consternado quando nossos pacifistas, que respeito, desconectam sua memória diante de um passado recente terrível. Eu não quero me calar diante dos horrores do meu tempo, diante das loucuras históricas de meus compatriotas.

Sétimo escritor de língua germânica a receber o Nobel. Desde os anos 70 considerado um sério candidato ao prêmio. Demorou pra chegar?

A verdade é que não acreditava que fosse possível. Pensava que não receberia o Nobel. Sinceramente, não esperava, foi uma surpresa. Posso dizer que sinto alegria e orgulho.


“Meu Século” já foi traduzido no Brasil. O senhor conta com admiradores no nosso país. Tem interesse em uma visita?

Há que contar com o tempo, são muitas as coisas que me caem em cima neste momento. Além disso, levo muitos anos escrevendo, estou velho. De modo que a liberdade de movimento nem sempre coincide com a vontade.


TODA a OBRA do ESCRITOR

DIE VORZÜGE DER WINDHÜHNER
(poemas, 1956)

DIE BÖSEN KÖCHE. EIN DRAMA
(peça de teatro, 1956)

HOCHWASSER. EIN STÜCK IN ZWEI AKTEN
(peça de teatro, 1957)

ONKEL, ONKEL. EIN SPIEL IN VIER AKTEN
 (peça de teatro, 1958)


O TAMBOR - Die Blechtrommel
(romance, 1959)

O GATO E O RATO - Katz und Maus
(romance, 1961)

O CÃO DE HITLER - Hundejahre
(romance, 1963)

GLEISDREIECK
(poemas, 1960)


DIE PLEBEJER PROBEN DEN AUFSTAND
(peça de teatro, 1966)

AUSGEFRAGT
(poemas, 1967)

ÜBER DAS SELBSTVERSTÄNDLICHE. REDEN – AUFSÄTZE – OFFENE BRIEFE – KOMMENTARE
(discursos, ensaios, 1968)

ÖRTLICH BETÄUBT
(1969)


DAVOR
 (peça de teatro, 1970)

AUS DEM TAGEBUCH EINER SCHNECKE
(1972)

DER BÜRGER UND SEINE STIMME. REDEN AUFSÄTZE KOMMENTARE 
(discursos, ensaios, 1974)

DENKZETTEL. POLITISCHE REDEN UND AUFSÄTZE 1965–1976 
(ensaios políticos e discursos, 1978)


O LINGUADO - Der Butt
(romance, 1977)

DAS TREFFEN IN TELGTE
(1979)

KOPFGEBURTEN ODER DIE DEUTSCHEN STERBEN AUS
(1980)

WIDERSTAND LERNEN. POLITISCHE GEGENREDEN 1980–1983 
(discursos políticos, 1984)


A RATAZANA - Die Rättin
 (romance, 1986)

MAUS PRESSÁGIOS - Unkenrufe
(romance, 1992)

UMA LONGA HISTÓRIA - Ein Weites Feld
(romance, 1995)

O MEU SÉCULO - Mein Jahrhundert
(memórias, 1999)


PASSO DE CARANGUEJO - Im Krebsgang
 (romance, 2002)

LETZTE TÄNZE
(poemas, 2003)

DESCASCANDO A CEBOLA - Beim Häuten der Zwiebel
(autobiografia, 2006)

DUMMER AUGUST
(poemas, 2007)


A CAIXA - Die Box
(autobiografia, 2008)

EM VIAGEM DE UMA ALEMANHA À OUTRA: DIÁRIO, 1990 
- Unterwegs von Deutschland nach Deutschland. Tagebuch 1990.
(diário, 2009)

PALAVRAS DE GRIMM - Grimms Worter
(ensaios, 2010)


GALERIA de FOTOS

GÜNTER GRASS
 

OTTO DIX

março 25, 2017

.................................................... INTERLÚDIO - 29 VEZES MORVAN



Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas

Ilustrações:
ANDY GOLDSWORTHY
(Reino Unido. 26 de julho, 1956)

A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
PAULO LEMINSKI

ouvindo MOZART


No período mais próximo da morte dele, vi muito pouco MORVAN. Que era uma pessoa que eu via todos os dias. Então senti desconforto, parecendo que poderia ou deveria ter feito alguma coisa, ter estado perto de algum modo. Quando soube do seu falecimento fui arrebatado por sentimentos de amor, saudade, desmantelo e compaixão. Lembrei-me do nosso projeto-sonho-lúdico, planejado detalhadamente e adiado duas ou três vezes, de acompanhar o Velho Chico da nascente ao mar, ou vice-versa. Ele fotografando, eu descrevendo no papel o que via n'alma. Sem exagero, chorei dias seu óbito cruel e inesperado. 

Quase nove meses se passaram. Enfrento os desafios e dinâmicas do destino. O passado enterrado, e vez ou outra brotando da terra fértil uma plantinha desconhecida de flor azul. Ela habita esse texto, multiplicando-se em rabiscos, reflexões escritas em folhas soltas ou em objetos, notas a lápis em livros, e-mails recebidos dele, duas cartas, muitas fotografias. O mineiro MORVAN amava fotografar. E mais ainda, reinventar a imagem, quebrando padrões. Nossos retratos levam ao caminho do coração. Leitor atento de Clarice Lispector e Fernando Pessoa, ele também escrevia dádivas (e dúvidas). 

Errar é humano, sabemos, mas amar, valorizar e perdoar também. A dor passa. A saudade acalma. A decepção ensina. Doida e lúcida, a vida continua. Nesse tributo, antologia emocionada do pensamento morvaniano. Ele se foi aos 29 anos de idade. Selecionei 29 fragmentos de gritos e sussurros escritos sensivelmente por ele. Conhecimento é o tecido do espírito. Confira essa bonita, densa e atormentada aventura intimista.


01
Acho que esse texto já é ultrapassado, como se o tempo contasse para ele como conta para os efemerópteros, aqueles insetinhos poéticos que te falei, que tem apenas algumas horas de esplendor numa noite para revelar seu total sentido. Mas segue-se ele; soando a palavras apressadas e sujas, póstumas do momento.

02
Me angustiam os vermes, esses mesmo, os reais, e outros, os mentais, cuja matéria são as ideias amorfas, ainda larvais e sôfregas por tudo que ainda não se sabe ao certo, que não adquiriram forma delimitada e tão pouco a leveza flutuante tão almejada.

03
Antonio meu raro, sua vida tem tantas facetas e tu és tão transparente, polido e vivo que encheria de inveja o mais belo dos cristais, sua rareza é de diamante bruto, a qual apenas olhos líricos e atentos identificariam as magníficas iridescências que emites despretenso de seu íntimo. Quero-te meu raro, como almeja o ourives a rocha doirada talvez longínqua e profunda que jamais encontrará... longe demais de seu alcance...


04
Sou confuso e sabes, como pode um homem ter coisas tão belas e cruéis dentro de si, simbióticas e caóticas na profusão de tudo acontecendo contíguo?

05
Sou livre, e canto a liberdade e a verdade. Amo a natureza e suas intrincâncias e místicas, de seu estudo tenho feito ofício e me encho de adoração e respeito mais que milenar por todas estas criaturas.

06
É tudo uma questão de adaptação e evolução... mas, quanto aos seres gente, a que realmente se deve adaptar? O que é mesmo evoluir?

07
As vezes não me sinto bem em alguns ambientes, me mantenho ali erguido mas perdendo, é como que drenado em energia pelo que não sei o que é, uma asfixia...


08
Acontece que acabo de aqui aterrissar e estou tão aberto ao mundo que me embrenho incauto por tantos lugares, e temo não saber a hora de voltar, retroceder com o mínimo de danos possível a meu solitário e protegido interior. Âncoras não tenho e tanto menos espinhos, exploro universos que me mantive bastante distante e até combatia, preconceituoso em diversos momentos mas acreditando numa coerência ideologicamente delimitada.

09
Como são engraçados e irônicos os eventos da vida... já pousaram joaninhas em meus braços, borboletas já aceitaram os meus dedos ...os beija-flores nunca, mas pousarão um dia.

10
Me sobressalto mais uma vez contigo, a atenção intermitente que tens comigo e a doçura com que tratou essa minha causa tão aversiva, tudo me cativa. Pois afinal, encontrei alguém que pelo relevo suntuoso e as vezes drástico da vida, também coleciona dejetos, coisas valorosas do ínfimo, uma rosa, uma rocha, uma casca, uma brisa, um abraço.


11
Há tanto por se dizer, mas eu tenho uma enorme queda por alcançar a nobreza elucidante que podem certos silêncios.     

12
Uma verborragia breve, sobre a crueza da vida que não brinca.

13
Eu preciso escrever que... Eu não sou enganado por deuses. Eu sou um santo macabro, solitário no altar de minha total descrença. Me amaldiçoo usando rosas brancas. Me perfumo de morte para viver meu não-tempo.

14
Crio eu por martírio deliberado as minhas próprias e pantanosas incompreensões. Decidi pela deriva.


15
Cresço como um ficus na lama do obscuro e lanço raízes tênues em todas direções. Não me fixo, me sustento [ou houve um tempo]. Rogo meu próprio milagre. A esperança que me sustenta, reside nas partes mais tenras de manhãs excepcionais.

16
Minha consciência não é do tipo que permite paixões não decididas. Meu controle é tão frio que queima.

17
Divago. Devagar. Tão restrito e cativo é a novidade insuspeitada de meu triste trajeto.

18
Fui honrado com tal íntima visão, numa noite vagabundo com você olhando constelações na mata escura... sentados no alto de uma montanha na Chapada Diamantina, Bahia... deixei de te contar quando falávamos de cigarras, vagalumes  e meteoritos.       

Com enorme apreço.


19
Não tenho a vocação do beija-flor, esse dom de viver só de beleza. Só queria é que ele me aceitasse - como disse uma vez -, e pousasse mesmo que por um segundo em meu dedo... talvez eu não seja tão inocente e puro quanto cobra seu rigoroso juízo, ou talvez, por nunca estar no estado de bem-estar furta-cor que os atrai.

20
Queria o ato falho de dizer teu nome no lugar do meu. Queria me cobrir como uma pálpebra e simplesmente girar o meu espírito para o jamais visto. Quero ser ridículo com todas minhas forças. Quero te em paz... Imanto-te de todo bem do mundo.

21
Tô com sono, meio delirante. Seu poema me lembrou das fotos que tirei no jardim, há muito tempo, quando um beija-flor apareceu lá morto, tão colorido que era uma incoerência.

22
Pessoas muito diferentes só se cumprimentam. O mais importante é estar bem com seu interior e manter o critério da verdade. Só eles podem gerar frutos humanos e verdadeiros. Tenho meu lado obscuro, mas quero criar apenas coisas que, de alguma forma, iluminem e/ou proporcionem positivamente as consciências.


23
O ser humano é uma criatura sinestésica com um potencial enorme e diverso de criar metáforas e alegorias ao seu entorno. Todo ser é, em diferentes níveis, capaz de modificar o mundo e a si próprio de formas que os recorrentes juízos de valor maniqueísta não conseguem abarcar. Prefiro o status dialético de complexidade, seus maiores argumentos e calibrações.

24
Peço desculpas pela minha falta de eternidades. Desculpe também a solidez de minha solidão [cheia de pontos fracos inatingidos]. Desculpe enfim, estas ideias jorrando feito sangue duma cabeça decapitada.

25
Me desculpe, mas me utilizei de uma bebida e de cigarros para te escrever, às vezes me travo devido suposto rigor gramatical e demasiado crítico que talvez analise minhas palavras, padeço e emudeço, como eclipsado por sua cultura e vivência... é essa juventude miserável e ansiosa. Só sei que SEMPRE há saídas, umas mais e outras menos honrosas. Tyler D. mesmo diz, em Fight Club, que “Losing all hope was freedom”... e Hesse no Tratado do Lobo de Estepe, delata “que é mais nobre e belo deixar-se abater pela vida do que por sua própria mão”.


26
No mais, sigo tentando preencher com boas vivências os meus dias, circulando em poucos espaços e ao lado de meus poucos “colegas”, consciente que não tenho amigos em Natal. Te ____. Não consegui descobrir sua palavra. Talvez haja tempo. Amar é para os ordinários.   

27
No poema “Se te queres matar”, Pessoa indaga: “De que te serve o teu mundo interior que desconheces? / Talvez, matando-te, o conheças finalmente. / Talvez, acabando, comece...”. Estou muito abatido e triste, essa semana foi um teste de resistência. Preciso suportar o peso de minha solidão; reaprender a estar comigo e me enfrentar; mastigar na boca sangrenta, as velhas sinas e carmas. Não vou elaborar maiores pensamentos, não é o momento. Sonho com uma placidez entre nós.
Que resistamos a tudo isso.

Um abraço doce e eterno,
meu caro  e adorado Antonio

28
Mas me pego pensando... Talvez nossas línguas pudessem nos desatar. Talvez antes que terminasse de dizer, minha boca fosse a tua. Talvez imediatamente antes de falares noite, eu já balbuciasse m-i-n-ú-s-c-u-l-a-s-e-s-t-r-e-l-a-s... E não há mais o que dizer... Repito: não há mais o que me dizer. Não tenho um apontamento para uma redenção mais nobre [ou coisa-outra-qualquer].

29
Que os pássaros e os fungos se fartem dos frutos que não soubemos enxergar. Foi uma linda lua-de-mel. Prefiro me despedir assim. Não quero que me veja chorando. Obrigado. Muito mesmo. Querido e raro Antonio.

POEMAS para MORVAN
(resgatados em e-mails)

01
Há quase sempre
uma voz a murmurar
oculta noutra voz.

Há na realidade azulada
uma saudade medonha
um viver-desvivendo.

Há nas constelações íntimas
o sol e o infinito
fagulhas do sem nome.

Há o tempo no meu corpo
recordando e apagando.
Esta tarde reparei.

02
Pernoita em mim. E se por acaso me vem à memória, ama-me na conexão encantada, no aroma cálido da cumplicidade. Escalo a gratidão aveludada, respirando o perfume queimado das estrelas. Noite ainda, seu corpo ausente se instala vagaroso no meu ser-silêncio, enquanto envelheço na nômade solidão das aves.

03
colibris sobrevoam
fartos cabelos
coração e arte.

pousando em ti
te voam, e do jeito deles
poemados
na ordem mais natural.

cristalino diante do inusitado
transformado em colibri azulado
habita meu jardim florido.

desenho de morvan para antonio

FRASES de RIOBALDO
(selecionadas e interpretadas por Morvan - 
aniversário 2013 de Antonio Nahud)

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

O jagunço Riobaldo. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – porque não sou, não quero ser.

Eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! (...) Este mundo é muito misturado ...

A vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho.

 Tudo que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito.

Um sentir é do sentente, mas o outro é o do sentidor.

Para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar, não se carece.

morvan fotografado por antonio nahud - 2014

E vou-me embora
Por um mau vento
Que me leva
Sem rumo, lento,
Tal como leve
Folha morta
PAUL VERLAINE